
Data centers na corrida eleitoral: quem paga a conta de água e luz?
Candidatos à Presidência prometem atrair mais data centers ao país, mas divergem sobre exigências ambientais — enquanto especialistas alertam para o consumo intenso de água e energia dessas instalações.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Todo mundo quer o data center, mas quem paga a conta?
Data centers viraram promessa de campanha. Boa parte dos presidenciáveis defende atrair mais desses centros de processamento para o Brasil, apostando em geração de empregos, investimento estrangeiro e protagonismo em inteligência artificial. O problema é que pouca gente para para explicar quem vai bancar — e fiscalizar — o consumo de água e energia que essas estruturas exigem para funcionar 24 horas por dia, todos os dias do ano.
A Lei do Redata (Regime Especial de Tributação para Data Centers), sancionada em setembro, já deu o tom do debate: o governo estima isenção fiscal de R$ 5,2 bilhões só em 2026 para empresas do setor, com suspensão de tributos como Imposto de Importação, PIS/Cofins e IPI. Em troca, a lei exige uso de energia renovável ou de baixa emissão, critérios de eficiência hídrica e que pelo menos 10% da capacidade de processamento seja destinada ao mercado interno. É um bom resumo da pergunta que fica no ar: dá para crescer rápido sem sobrecarregar a rede elétrica e as bacias hidrográficas que abastecem cidades inteiras?
Foto: reprodução/correiobraziliense.com.br
Propostas parecidas, exigências diferentes
No campo eleitoral, a diferença não está em ser a favor ou contra os data centers — praticamente todo mundo é a favor. A diferença está no tamanho da conta ambiental que cada proposta está disposta a cobrar das empresas. Há quem condicione incentivos tributários a exigências ambientais, tecnológicas e sociais explícitas, com investimento também na rede elétrica. Do outro lado, há propostas que apostam primeiro em atrair investimento privado com energia barata e matriz renovável como vantagem competitiva, deixando as salvaguardas em segundo plano no discurso. Também aparecem ideias de zonas econômicas especiais voltadas a inteligência artificial, tratando a capacidade computacional como produto de exportação.
Servidor ligado o tempo todo, torneira aberta o tempo todo
Especialistas ouvidos na cobertura do tema resumem o risco em duas frases. Para Luca Belli, professor da FGV, instalar data centers não garante soberania digital por si só — o Brasil pode virar apenas fornecedor de recursos naturais e energéticos para tecnologia controlada por outros países. Já o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) chama atenção para o operacional: servidores funcionam ininterruptamente, consumindo energia em escala industrial e volumes relevantes de água nos sistemas de refrigeração.
Fica a pergunta que interessa a quem mora perto de um data center ou vê a conta de luz subir: qual proposta detalha, de fato, quem monitora esse consumo depois que a obra sai do papel? Até agora, é o ponto que menos aparece nos discursos de campanha.
Atualização (23/09, 18:54): Atualização (23/09/2026): O governador da Califórnia, Gavin Newsom, assinou em 21 de setembro um pacote de sete novas leis que impõem obrigações de transparência e divisão de custos aos data centers instalados no estado — a resposta legislativa mais abrangente já registrada nos Estados Unidos sobre o tema. As normas incluem os projetos de lei da Assembleia estadual AB 1577, AB 2383, AB 2469 e AB 2619, além dos projetos do Senado SB 886, SB 887 e SB 1168.
Na prática, a AB 1577 passa a exigir relatório anual de consumo de energia dos data centers. Já a AB 2469 impede que governos locais aprovem novos empreendimentos ou expansões sem que a empresa divulgue previamente a demanda de água projetada, a fonte de abastecimento e as medidas de eficiência adotadas; a AB 2619 complementa a exigência com relatório anual de uso real (ou estimado) de água. No front elétrico, a AB 2383 e as SB 886 e SB 1168 tratam da alocação dos custos de infraestrutura necessários para atender grandes data centers na rede, com o objetivo declarado de evitar que essas despesas sejam repassadas a outros consumidores de energia.
A assinatura marca uma reviravolta em relação à postura de Newsom um ano antes: em outubro de 2025, ele havia vetado a AB 93, projeto que exigia divulgação de consumo de água por data centers como condição para licenciamento municipal, alegando receio de que regras rígidas de transparência pudessem frear o crescimento do setor de inteligência artificial no estado.