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Ciência21 de ago. de 2026, 14:23

Data centers orbitais da SpaceX podem criar nova categoria de lixo espacial

Cálculo de astrônomos sobre a constelação de 1 milhão de satélites de data center da SpaceX aponta para reentradas de detritos a cada três minutos — uma espécie de mineração de asteroides ao contrário.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: hoje entram na atmosfera de 3 a 4 pedaços de lixo espacial por dia. Se o plano da SpaceX sair do papel, esse número pode virar um a cada três minutos — quase 500 reentradas diárias.

Esse é o cálculo, confirmado como estimativa técnica, feito pelo astrônomo e consultor de céu escuro John Barentine a partir do pedido que a SpaceX protocolou na FCC (a agência reguladora de telecomunicações dos Estados Unidos) em janeiro de 2026. A empresa de Elon Musk quer autorização para lançar uma constelação de até 1 milhão de satélites que funcionariam como data centers orbitais, aproveitando energia solar abundante e fugindo das restrições de terra, água e rede elétrica que travam data centers na Terra.

O que já está confirmado

O pedido está protocolado e tramitando na FCC em regime de via rápida (fast-track), o que dispensa a SpaceX de uma avaliação de impacto ambiental completa — hoje é quem se opõe ao projeto que precisa provar que existe um problema, e não o contrário. Mais de mil comentários públicos foram enviados à agência até o prazo de 6 de março, a maioria contrária ao plano. Até a Amazon pediu à FCC que rejeitasse o pedido.

Aaron Boley, codiretor do Outer Space Institute na Universidade de British Columbia, foi direto: segundo ele, o projeto "passa reto" por qualquer limite razoável e é "uma má ideia" para o uso e acesso de longo prazo ao espaço, por praticamente qualquer critério que se use pra medir.

O que é hipótese e especulação

Aqui mora o paralelo com a mineração de asteroides ao contrário: em vez de trazer recursos do espaço pra Terra, a lógica dos data centers orbitais é jogar hardware lá em cima — e, quando ele se tornar obsoleto ou quebrar, descartá-lo de volta pela atmosfera. É um cálculo de "yeetcycling": lançar e reciclar por reentrada, sem estrutura de reaproveitamento como a que existe pra eletrônicos na Terra.

Os satélites do projeto operariam em órbitas de alta inclinação, iluminadas pelo sol mesmo à meia-noite vista do solo — o que preocupa astrônomos pelo brilho constante no céu noturno. Cientistas também levantam a hipótese de que reentradas frequentes liberariam óxidos de alumínio e lítio na atmosfera superior, com potencial de atrapalhar a recuperação da camada de ozônio, embora a SpaceX não tenha detalhado como pretende mitigar esses efeitos — só prometeu, de forma vaga, "minimizar impactos atmosféricos".

Se cada satélite tiver vida útil curta e a constelação inteira precisar ser trocada periodicamente, o volume de material reentrando na atmosfera terrestre pode se tornar uma fonte constante e cumulativa de resíduos — um problema que a indústria espacial nunca enfrentou nessa escala.

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