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Smart CitiesMercado06 de nov. de 2026, 07:46

Data centers perdem terreno nas urnas dos EUA e dividem comunidades

Nos midterms de 2026 nos EUA, eleitores aprovaram em massa restrições a data centers de IA em dezenas de cidades, e candidatos que prometeram moratórias venceram disputas-chave, incluindo o governo do Texas.

Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities

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O voto que parou os data centers

Se você mora perto de um terreno reservado para um novo data center de inteligência artificial nos Estados Unidos, os midterms de 2026 trouxeram um recado claro das urnas: basta. Segundo reportagem do site americano The Verge ("Data centers lost the midterms"), quase todas as medidas locais que propunham restringir data centers foram aprovadas nas eleições de meio de mandato realizadas em novembro — e quase nenhuma proposta favorável à expansão desses centros passou.

Só para ter ideia da escala: havia cerca de 41 medidas municipais sobre data centers na cédula de votação em dez estados americanos, segundo o levantamento — 21 delas só no estado de Ohio, sete em Illinois, quatro no Maine, três no Kansas, e uma cada em Wisconsin, Nevada, Nova Jersey, Dakota do Norte, Florida e Califórnia.

Foto: reprodução/cbsnews.com

De Alhambra a Edgewater: o mesmo recado

Em Alhambra, cidade da região metropolitana de Los Angeles, na Califórnia, mais de 80% dos eleitores aprovaram a Medida DB, que proíbe a instalação de data centers no município — ela se tornou a segunda cidade californiana a banir esse tipo de instalação por votação popular, depois de Monterey Park, outra cidade vizinha de Los Angeles. Do outro lado do país, em Edgewater, cidade litorânea da Florida, os eleitores aprovaram impedir a construção de novos data centers no município.

São comunidades diferentes, em costas opostas dos EUA, mas com a mesma queixa de fundo: moradores dizem sentir no bolso e na infraestrutura local o custo de hospedar a infraestrutura que sustenta a corrida da IA.

O tema chegou ao governo estadual

A disputa não ficou restrita às cidades. No Texas, a democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott, até então no cargo há três mandatos, numa campanha em que cobrou do adversário o crescimento acelerado de data centers no estado e defendeu moratória para novos projetos. O próprio Abbott, que meses antes celebrava um investimento de US$ 40 bilhões do Google no estado, mudou de discurso: em setembro, suspendeu a aprovação de novas licenças de data centers no Texas até concluir uma auditoria da fila de espera por conexão à rede elétrica.

Quem fiscaliza essa conta?

O resultado dos midterms mostra eleitores de cidades grandes e pequenas, de costas e estados diferentes, convergindo na mesma preocupação: data centers consomem energia e água em volumes que pressionam a infraestrutura local, muitas vezes sem contrapartida clara para quem mora ao lado. Fica a pergunta que caberia a qualquer comunidade brasileira que hoje recebe projeto parecido: quem realmente fiscaliza o consumo de energia e água desses empreendimentos, e quem paga a conta quando a conta da infraestrutura local aumenta?


Atualização (05/11, 00:47): O desdobramento eleitoral já tem data para a próxima rodada: a derrota dos data centers nas urnas de terça-feira uniu democratas e republicanos em torno de uma pauta que, até pouco tempo, parecia nicho. Horas depois da apuração, o senador Bernie Sanders (independente-VT) renovou o pedido por uma moratória nacional de novos data centers de IA, projeto apresentado em março junto com a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (D-NY), que suspenderia novas construções até que o Congresso crie salvaguardas para trabalhadores, consumidores e meio ambiente. Com democratas ampliando sua base no Congresso após o pleito, a proposta ganha fôlego político, mas ainda enfrenta resistência bipartidária.

Nem todo democrata compra a ideia de freiar a expansão da infraestrutura de IA. O senador John Fetterman (D-PA) disse concordar com o alerta do secretário do Interior, Doug Burgum, de que uma moratória equivaleria a hastear uma "bandeira de rendição" para a China na corrida tecnológica. Do lado da Casa Branca, o presidente Trump tentou esvaziar a pressão popular convocando empresas de tecnologia para compromissos voluntários de autossuficiência energética, enquanto a administração propõe uma legislação federal que evitaria leis estaduais consideradas excessivamente restritivas ao setor.

O cenário que se desenha é de embate ampliado: de um lado, estados e municípios que já aprovaram moratórias e restrições locais nas urnas pressionam por mais controle comunitário sobre novos empreendimentos e por regras que obriguem as empresas a pagar pela própria modernização da rede elétrica; do outro, um governo federal e parte do Congresso resistentes a qualquer freio nacional, sob o argumento de competitividade frente à China. Apesar do impulso pós-eleitoral, a maioria dos parlamentares de ambos os partidos ainda rejeita a ideia de moratória, e analistas consideram pouco provável que o projeto de Sanders e Ocasio-Cortez avance em qualquer uma das casas do Congresso no curto prazo.


Atualização (06/11, 00:53): Eleitores de ao menos 10 estados dos EUA aprovaram medidas contra data centers em 3 de novembro, e especialistas apontam que agora as prefeituras terão de negociar sob pressão de moradores e empresas de tecnologia.

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