
Delta usa IA para cobrar tarifa sob medida e CEO promete lucro 50% maior
Ed Bastian, CEO da Delta, diz que a inteligência artificial pode elevar a margem de lucro da companhia de 10% para 15% — cerca de US$ 3 bilhões a mais — ao personalizar preços de passagens. O plano já provocou reação de senadores dos EUA preocupados com privacidade e tarifas mais altas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que interessa: 50% a mais de lucro
A Delta Air Lines quer usar inteligência artificial para elevar sua margem de lucro de 10% para 15% — um salto que o próprio CEO, Ed Bastian, estima em cerca de US$ 3 bilhões adicionais. A meta foi detalhada em entrevista ao podcast "Airlines Confidential", em agosto, e reforçada nos resultados trimestrais da companhia ao longo de 2025.
O plano tem dois pilares: cortar custos substituindo decisões humanas por decisões automatizadas em áreas como precificação, upgrades, recuperação de tripulação, manutenção e combustível; e usar IA para calibrar tarifas com mais precisão — inclusive, segundo a empresa, de forma diferente para cada passageiro.
Foto: reprodução/viewfromthewing.com
Como funciona a régua de preços
O motor por trás da estratégia é da Fetcherr, startup israelense especializada em precificação por IA para grandes companhias aéreas. No terceiro trimestre de 2025, a Delta já usava o sistema para definir tarifas em cerca de 3% dos voos domésticos, com meta de chegar a 20% da malha até o fim do ano.
Em teleconferência com investidores, o presidente da Delta, Glen Hauenstein, descreveu a ferramenta como um "super analista" que trabalha 24 horas por dia, 7 dias por semana, simulando em tempo real o preço ideal a partir de milhões de pontos de dados — algo que um analista humano levaria muito mais tempo para calcular. Segundo a empresa, o sistema já entregou "receitas unitárias favoráveis" nos testes e representa uma reengenharia completa da forma como a companhia precifica passagens.
Quem ganha, quem paga a conta
Para a Delta, a conta fecha: menos gente na operação de bastidores, decisões de máquina em tempo real e tarifas otimizadas para extrair o máximo que cada cliente estaria disposto a pagar. É a lógica clássica da precificação dinâmica levada a um novo patamar de granularidade.
Do outro lado do balcão, a novidade acendeu um alerta em Washington. Os senadores democratas Ruben Gallego, Mark Warner e Richard Blumenthal enviaram carta ao CEO da Delta questionando o uso de dados pessoais para calibrar preços e alertando que a prática poderia empurrar tarifas até o "ponto de dor" financeiro de cada consumidor. A pressão política levou a discussões sobre um projeto de lei nos EUA para proibir empresas de usar dados pessoais de consumidores na definição de preços via inteligência artificial.
A Delta respondeu que a tecnologia não usa dados pessoais para individualizar tarifas e que se trata de uma evolução da precificação dinâmica já praticada há décadas no setor, considerando fatores como demanda geral do voo, preço do combustível e concorrência. Mas o episódio deixou claro o dilema por trás da promessa de lucro maior: quanto mais fina a régua de preços da IA, maior a desconfiança de quem paga a passagem.