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Mercado01 de nov. de 2026, 22:02

Denunciante da Theranos vê no boom da IA a mesma receita da fraude

Tyler Shultz, que expôs as fraudes da Theranos, diz que a dificuldade de auditar IA cria terreno fértil para enganar investidores em avaliações trilionárias de empresas sem lucro.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

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Trilhões de dólares, zero lucro

Dez bilhões de dólares foi o valor que a Theranos, startup de exames de sangue que entrou em colapso por fraude, fundada por Elizabeth Holmes, chegou a valer sem que a tecnologia jamais tivesse funcionado. Hoje, segundo o denunciante que ajudou a derrubar esse esquema, o mercado de inteligência artificial repete a lógica em escala maior: empresas que nunca geraram lucro são avaliadas em trilhões de dólares. O alerta é de Tyler Shultz, ex-funcionário que denunciou as fraudes da Theranos e neto de George Shultz, ex-Secretário de Estado dos EUA que integrava o conselho da empresa, em entrevista ao veículo americano The San Francisco Standard publicada nesta sexta-feira (30/10).

A frase que resume o alerta: "A huge danger with AI is that I think it is really hard to do due diligence on it. It's really hard to tell the difference between what is something truly unique and new versus like, a ChatGPT wrapper… If you want to deceive people, I think this is a great opportunity to go deceive people" ("Um grande perigo com a IA é que é muito difícil fazer due diligence nela. É difícil diferenciar o que é algo realmente único e novo de, digamos, um wrapper do ChatGPT (ferramenta de IA conversacional da OpenAI)... Se você quer enganar as pessoas, essa é uma grande oportunidade para enganar as pessoas").

Shultz traça a linha com o passado: Holmes, segundo ele, construiu sua captação em relações pessoais informais — "os dias de tomar um café de trinta minutos com alguém e mandar US$ 100 mil deveriam ter acabado. Elizabeth pegou esse modelo e escalou para US$ 100 milhões." A diferença é que a complexidade técnica da IA torna a verificação ainda mais difícil do que era com um aparelho de diagnóstico, e o mundo, na visão dele, "se importa menos com a verdade".

O pano de fundo pessoal reforça o argumento: Holmes, condenada por fraude e cumprindo pena de mais de 11 anos de prisão, estaria preparando, ao lado do herdeiro de hotel Billy Evans, uma nova empresa de diagnósticos chamada Haemanthus — apelidada de "Theranos 2.0" — que já teria levantado cerca de US$ 20 milhões.

Quem ganha e quem fica exposto

Quem ganha com esse ambiente é quem sabe surfar a narrativa: fundadores com discurso afiado e pouca transparência técnica, que exploram a dificuldade real de investidores e jornalistas em auditar modelos de IA. Quem corre risco é o investidor que troca diligência por FOMO, e o próprio ecossistema de IA, que vê seu crédito coletivo exposto a cada "wrapper" vendido como tecnologia revolucionária. Se avaliações trilionárias continuarem indo para empresas sem lucro e sem auditoria independente, o episódio Theranos deixa de ser anomalia e passa a ser modelo de negócio.

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