
Depois de vender para grandes marcas, fundadores apostam em reunir gente offline
Fundadores que já venderam empresas para Lululemon e Procter & Gamble agora apostam que reunir pessoas fisicamente é um setor de negócio próprio, não só um efeito colateral de produto.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 500 milhões é o número que dá início a essa história
Foi o quanto a Lululemon, marca canadense de roupas para exercício avaliada em bilhões de dólares, pagou em 2020 pela Mirror, o espelho de fitness conectado fundado pela ex-bailarina Brynn Putnam. Três anos depois, a compradora registrou baixa contábil de US$ 442,7 milhões sobre esse mesmo negócio — quase o valor total pago. A aposta em fitness conectado não deu certo pra quem comprou. Mas deu a Putnam um capital de saída considerável, e um problema novo pra resolver.
O padrão: vender pra gigante, virar pra "vida real"
Putnam não é caso isolado. Tristan Walker vendeu a Walker & Company, dona das marcas de cuidados pessoais Bevel e Form, para a Procter & Gamble, gigante americana de bens de consumo dona também de Gillette e Pampers, em 2018, por valor não divulgado — estimado entre US$ 20 milhões e US$ 40 milhões. Os dois fundadores, que construíram carreira em produtos mediados por tecnologia, agora apostam justamente no oposto: negócios que só existem porque reúnem gente no mesmo espaço físico.
Putnam levantou US$ 35 milhões para a Board, mesa touchscreen que reconhece objetos físicos. Walker abriu a Heirloom, escola de ofícios manuais — a primeira unidade, de trabalho em couro, já tem metade das vagas preenchidas por ex-trabalhadores de tecnologia. Outros nomes do setor seguem a mesma lógica: Andy Dunn, fundador da marca de roupas Bonobos, levantou US$ 24 milhões para a Pie, plataforma de organização de encontros sociais; Adam Neumann, cofundador do WeWork, captou mais de US$ 450 milhões para um empreendimento residencial chamado Flow.
Quem ganha com a solidão
A tese comercial se apoia em números da Organização Mundial da Saúde: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, associada a 870 mil mortes por ano. Uma pesquisa da Harris Poll para a rede Marriott Bonvoy mostra que dois terços dos americanos hoje preferem gastar em experiências a em produtos — e dizem que o varejo tradicional parece genérico.
O que ainda não está claro
Nenhuma dessas novas empresas divulgou receita ou lucro até agora. A pergunta que resta é se transformar "estar junto" em produto escala como negócio de venture capital, ou se depende demais do carisma pessoal de quem já vendeu uma empresa antes.