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Ciência16 de ago. de 2026, 22:45

Desertificação avança no Brasil e ameaça 39 milhões de pessoas

Levantamento aponta que 18% do território brasileiro já está em área suscetível à desertificação, com a Caatinga como epicentro da degradação — governo lançou plano de combate até 2043.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pense em três estados inteiros — Pernambuco, Paraíba e Alagoas — somados. Foi esse o tamanho da área que a desertificação ganhou no Brasil entre 2000 e 2020, segundo levantamento que embasa o novo plano federal de combate ao problema: de 1,35 milhão para 1,51 milhão de km² classificados como Áreas Suscetíveis à Desertificação. Hoje isso equivale a 18% do território nacional, uma fatia que já ameaça a segurança hídrica e alimentar de 39 milhões de pessoas — entre agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais do Nordeste, do norte de Minas Gerais, do Espírito Santo, do noroeste do Rio de Janeiro e do Mato Grosso do Sul.

O que já está confirmado

O epicentro do problema é a Caatinga: 11% da extensão do bioma — cerca de 100 mil km² — já está em condição crítica ou severa, com 42,6% da vegetação nativa removida. Em 2023, pesquisadores identificaram ali a primeira região árida do país, uma faixa de 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia — o estágio mais avançado do processo de degradação do solo, que difere de seca passageira porque não se reverte sozinho.

O bioma não é só vítima: ele também presta serviço ambiental de peso. Estudos citados no levantamento mostram que a Caatinga preservada retém 72% do carbono capturado diretamente no solo — cerca de 125 toneladas por hectare — e respondeu por metade de todo o sequestro líquido de carbono do Brasil em 2022. Degradar esse solo não é só perder produtividade agrícola: é perder um dos poucos ativos brasileiros de captura de carbono.

O que ainda é aposta

Em março deste ano, o governo federal lançou oficialmente o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB-Brasil 2025–2043), junto com o programa Recaatingar, que tem a meta de recuperar 10 milhões de hectares degradados em 20 anos. Técnicas de recuperação já testadas, como sistemas agrossilvipastoris, mostraram ganho de 85% na biomassa em áreas-piloto — mas esse é o resultado de projetos pontuais, não uma garantia de que a meta de 20 anos será cumprida. O plano tem prazo, tem orçamento anunciado e tem programa — falta ver se vai ter continuidade.

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