
Detran-SP só exibe 5 vistorias e abre brecha para fraude no hodômetro
Sistema público mostra apenas as vistorias mais recentes de cada carro, o que permite apagar do histórico visível quilometragens antigas mais altas. Detran-SP já reagiu com uma portaria que exige auditoria independente antes de liberar a transferência.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
A brecha que some do histórico
Quem compra um carro usado no Brasil confia no histórico de vistorias para saber se a quilometragem no painel bate com a realidade. O problema é que o sistema do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) mostra publicamente apenas as cinco vistorias mais recentes de cada veículo — e isso permite que registros antigos, com quilometragem mais alta, simplesmente saiam da consulta visível ao comprador.
A falha foi levantada pela coluna Caçador de Carros, do Uol, em reportagem de 27 de setembro, e replicada pelo Canaltech. Um dos casos citados envolve um veículo que tinha 214 mil km registrados em vistoria de 2025 e, dois meses depois, apareceu com 72 mil km numa nova inspeção aprovada — uma diferença de 142 mil km "apagados" do histórico visível, sem que o sistema aponte a inconsistência automaticamente para quem consulta.
Não é um caso isolado. Segundo dados citados na apuração, 7 em cada 10 carros usados à venda no Brasil apresentam algum tipo de adulteração na quilometragem do odômetro. A fraude se enquadra no crime de estelionato, artigo 171 do Código Penal, com pena de 1 a 5 anos de reclusão, multa e obrigação de reparar o dano — mas isso pouco ajuda o comprador que já fechou negócio achando que o carro rodou bem menos do que rodou.
Quem fiscaliza agora
O Detran-SP já deu uma resposta ao problema: publicou em novembro de 2025 a Portaria Normativa nº 47, que reorganiza o processo de vistoria no estado. Na prática, cada procedimento passa a depender da aprovação de uma empresa auditora independente antes de ser concluído, e só depois disso a transferência do veículo pode ser iniciada — uma camada extra de checagem que transfere parte da fiscalização a um terceiro, não só ao próprio órgão.
Fica a pergunta que interessa a quem compra carro em qualquer estado: quanto essa auditoria extra custa (e quem paga a conta, se é repassada na taxa de vistoria), e se outros Detrans do país vão adotar o mesmo modelo ou vão continuar expondo só as últimas cinco vistorias sem qualquer alerta automático de inconsistência. Até lá, a recomendação prática é sempre pedir ao vendedor notas fiscais de manutenção com data e quilometragem, para cruzar com o que aparece — ou não aparece — no sistema oficial.