
Dez anos após anúncio, Starship ainda enfrenta desafios para chegar a Marte
Uma década depois de a SpaceX revelar seus planos para o planeta vermelho, a Starship só alcançou a órbita terrestre em setembro. Entre o confirmado e o hipotético, a transferência de propelente em órbita segue como o maior obstáculo.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: dez anos é tempo suficiente para uma criança nascer e terminar o ensino fundamental. É esse o intervalo entre o anúncio do projeto Starship, em 2016, e a situação atual da SpaceX em relação a Marte — ainda sem data confirmada para decolar rumo ao planeta vermelho.
O que é confirmado
A Starship, o megafoguete reutilizável da SpaceX projetado para levar cargas pesadas (e, no plano original, humanos) além da órbita terrestre, completou seu primeiro voo totalmente integrado em abril de 2023. Em outubro de 2024, a empresa capturou o propulsor Super Heavy de volta à torre de lançamento pela primeira vez. E em 28 de setembro de 2026, no 14º voo de teste, a Starship alcançou a órbita terrestre pela primeira vez, levando ao espaço os primeiros satélites da nova geração da constelação Starlink V3, segundo reportagens do Exame e do Space.com.
Foto: reprodução/exame.com
Também é fato que a próxima janela de lançamento viável para Marte — calculada a partir do alinhamento orbital entre Terra e Marte, que se repete a cada 26 meses — só se abre entre o fim de 2028 e o início de 2029.
O que ainda é hipótese (ou, na prática, trabalho não feito)
O desafio mais citado pelos especialistas ouvidos pelo Olhar Digital é a transferência de propelente criogênico entre naves em órbita — um procedimento que, segundo a reportagem, nenhuma agência espacial jamais realizou com sucesso em grande escala. Para abastecer uma única Starship rumo a Marte, seriam necessários entre 8 e 14 lançamentos adicionais de veículos-tanque, cada um transportando cerca de 1.200 toneladas de propelente, em uma coreografia orbital que exige acoplamento e transferência automatizados em microgravidade.
Foto: reprodução/space.com
É aqui que entra a parte hipotética: uma demonstração em escala completa dessa transferência está planejada, mas ainda não ocorreu. Até lá, qualquer data para Marte é projeção, não compromisso.
As vozes da dúvida
O professor de engenharia aeroespacial Joseph Gonzalez argumenta que a Lua funcionaria como etapa intermediária necessária — um campo de testes antes do salto mais arriscado. Já Matija Renčelj, do think tank ESPI, é mais direto: hoje, a função mais imediata da Starship é comercial, puxada pelo lançamento de satélites Starlink, não pela aventura marciana.
Ou seja: a órbita alcançada em setembro prova que o foguete funciona. Chegar a Marte é outra equação, com peças que ainda não foram montadas.