
Disney contrata como 1º CTO ex-CEO de startup que processou por plágio
Karandeep Anand, que liderou a Character.AI, plataforma de chatbots de IA notificada pela Disney por suposta cópia de personagens, assume em outubro o cargo inédito de CTO da companhia. O mercado reagiu com queda de 2,2% nas ações.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
A cifra que chama atenção: 2,2% de queda no pregão
Foi assim que o mercado recebeu, nesta sexta-feira (18), o anúncio mais inusitado do ano no tabuleiro da Disney: as ações da companhia caíram 2,22%, de US$ 105,35 para US$ 103,01, na esteira da notícia de que a gigante do entretenimento nomeou seu primeiro Chief Technology Officer (CTO) da história — e o escolhido é Karandeep Anand, até então CEO da Character.AI, startup de chatbots de inteligência artificial baseados em personagens fictícios que a própria Disney já tentou calar na Justiça.
Do cease-and-desist ao contracheque
A ironia é grossa. Em setembro de 2025, a Disney enviou uma carta de cessar-e-desistir à Character.AI, acusando a plataforma de hospedar versões não autorizadas de personagens protegidos por direitos autorais das franquias do estúdio. Um ano depois, a mesma Disney contrata o executivo que comandava aquela empresa para liderar toda a sua infraestrutura tecnológica. Anand assume o posto em 2 de outubro, reportando-se diretamente ao CEO Josh D'Amaro, e vai supervisionar tecnologia corporativa, infraestrutura, dados e plataformas de IA, além de produto e engenharia.
Em comunicado, D'Amaro classificou a contratação como estratégica: Anand "traz uma combinação rara de experiência em infraestrutura, tecnologia de consumo e IA", disse o executivo, que assumiu o comando da Disney em março, após a saída de Bob Iger.
Quem ganha, quem perde
A Character.AI, fundada em 2021, viveu meses turbulentos. Em 2024, o Google pagou US$ 2,7 bilhões em um acordo não exclusivo de licenciamento de tecnologia que trouxe de volta à empresa os cofundadores Noam Shazeer e Daniel De Freitas, num movimento que esvaziou o núcleo técnico da startup sem comprá-la formalmente. A empresa também enfrentou processos judiciais graves, incluindo acusações de que seus chatbots teriam incentivado automutilação entre usuários. Para o mercado, a saída de Anand — que assumiu o comando da Character.AI em maio de 2025 — reforça a leitura de que a startup segue perdendo capital humano estratégico mesmo depois do acordo com o Google.
Já para a Disney, a aposta é clara: internalizar know-how de IA generativa vindo de dentro do setor, ainda que da concorrência mais delicada possível. Anand chega com currículo robusto — 15 anos na Microsoft, onde ajudou a construir a plataforma de nuvem Azure, além de passagem pelo Facebook entre 2015 e 2021 — e a expectativa do mercado é que parte da equipe técnica da Character.AI o acompanhe na mudança.
Sem detalhar metas de custo, valor de contrato ou impacto nos resultados de curto prazo, a Disney sinaliza que a criação do cargo de CTO é uma resposta à pressão por modernizar operações que hoje dependem menos de parques e cinema e mais de presença digital e dados. Resta saber se o mercado vai continuar descontando o movimento ou se, com resultados trimestrais à vista, essa aposta em IA proprietária vira múltiplo.