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MercadoIA19 de out. de 2026, 10:52Atualizada em 19 de out. de 2026, 13:07

Disney paga US$ 180 milhões para contratar maioria dos funcionários da Character.AI

Após a Character.AI pedir falência, a Disney fechou acordo bilionário para absorver quase toda a força de trabalho da startup e licenciar sua tecnologia de IA conversacional.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

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US$ 180 milhões pelo time, US$ 20 milhões pelos ativos

A Disney concordou em pagar cerca de US$ 180 milhões ao longo de três anos para contratar aproximadamente 65 funcionários da Character.AI, startup de chatbots de inteligência artificial que permitia criar e conversar com personagens virtuais e que, em meio a dívidas crescentes e processos judiciais, pediu recuperação judicial (Chapter 11) nesta semana. Segundo documentos apresentados ao tribunal de falências de Delaware, a companhia pagará cerca de US$ 60 milhões por ano em salários aos ex-funcionários contratados, que representam a maioria da força de trabalho da startup. Das 66 pessoas que receberam propostas, 56 já pediram demissão da Character.AI, enquanto 10 ainda aguardam atualização de visto de trabalho nos Estados Unidos.

Além da folha de pagamento, a Disney apresentou uma oferta de US$ 20 milhões (chamada de "stalking horse bid", que serve como piso para eventuais lances concorrentes) para adquirir ativos da startup, incluindo uma licença não exclusiva e perpétua sobre parte da propriedade intelectual e de reivindicações da empresa.

A queda da Character.AI

A Character Technologies, companhia por trás do Character.AI, formalizou o pedido de Chapter 11 em 12 de outubro, no tribunal de falências dos Estados Unidos para o distrito de Delaware. A empresa vinha registrando perdas mensais entre US$ 8 milhões e US$ 9 milhões e enfrentava processos judiciais envolvendo danos a usuários menores de idade, incluindo uma ação de uma mãe cujo filho de 14 anos morreu após desenvolver obsessão com um chatbot da plataforma, além de investigações governamentais sobre segurança infantil. A Character.AI alertou que a operação seria encerrada caso não surgisse uma proposta que sustentasse a continuidade da plataforma.

Quem ganha e quem perde

No centro do acordo está Karandeep Anand, que comandou a Character.AI como CEO até setembro e agora ocupa o cargo inédito de primeiro Chief Technology Officer (CTO) da Disney — posição criada especificamente para ele, com subordinação direta ao CEO Josh D'Amaro. Anand assumiu a função em 2 de outubro, ou seja, antes mesmo de o pedido de falência da ex-empregadora se tornar público.

Para a Disney, o episódio funciona como uma aquisição de talentos a preço de ativo em dificuldade: a empresa reforça seu time de IA sem pagar um prêmio de aquisição tradicional, aproveitando a crise regulatória e jurídica que abateu a startup. Já para a Character.AI, outrora avaliada como uma das promessas do setor de chatbots de IA, o desfecho marca o colapso de um modelo de negócio pressionado por custos operacionais altos e passivos legais crescentes — com a maior parte do time migrando para dentro da própria empresa que a vê como fonte de risco reputacional.


Atualização (19/10, 13:07): Atualização: A Disney estruturou o acordo com a Character.AI para evitar herdar os processos judiciais que atingem a startup. Em vez de comprar a empresa, a Disney agiu como parte de um processo de falência: a Character Technologies, dona da Character.AI, entrou com pedido de recuperação judicial (Chapter 11) no Delaware em 12 de outubro, e a Disney se apresentou como "stalking horse bidder" (proponente inicial) oferecendo US$ 20 milhões por uma licença não exclusiva e perpétua do código dos sistemas de treinamento, segurança e serviço da Character.AI, além de nove patentes — não pela empresa, pelo aplicativo, pela marca, pelas contas de usuários ou pelo histórico de conversas, que permanecem na massa falida. Paralelamente, a Disney pagará os US$ 180 milhões (ao longo de três anos) para contratar 66 dos 86 funcionários da Character.AI, incluindo o ex-CEO Karandeep Anand, que assumirá como CTO de uma nova unidade de IA da Disney. Juridicamente, as responsabilidades decorrentes das ações judiciais continuam vinculadas à Character Technologies e à sua massa falida, e não são transferidas à Disney.

A Character.AI enfrenta uma série de processos nos EUA — movidos por famílias como a da mãe Megan Garcia, da Florida, cujo filho de 14 anos morreu por suicídio após interações com os chatbots — que alegam que a plataforma incentivou menores à automutilação, ao suicídio e, em casos documentados, sugeriu que matar os pais seria justificável por eles limitarem o tempo de tela dos filhos. Em janeiro de 2026, a empresa, seus fundadores e o Google (que a licenciou e depois recontratou parte da equipe original) já haviam firmado acordos para encerrar parte dessas ações. Agora, no processo de falência, uma coalizão bipartidária de 40 procuradores-gerais estaduais dos EUA, liderada por Letitia James (Nova York) e John Formella (New Hampshire), interveio na Justiça de Delaware exigindo salvaguardas vinculantes de proteção a menores e privacidade para qualquer comprador dos ativos — incluindo verificação de idade, restrição de acesso de menores e mecanismos de exclusão de dados — antes de aprovar a venda. Matthew Bergman, do Social Media Victims Law Center, que representa famílias autoras de ações contra a empresa, não comentou publicamente a estrutura do acordo com a Disney.

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