
Divisão de US$ 1,5 bi da Anthropic com autores vira briga com editoras
A Anthropic vai pagar US$ 1,5 bilhão a autores por uso indevido de livros no treinamento de IA, mas editoras e agentes estão brigando pela fatia do acordo.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 1,5 bi na mesa, e ninguém concorda com a divisão
US$ 3 mil por livro pirateado é o valor médio que autores devem receber do maior acordo de direitos autorais já fechado por uma empresa de inteligência artificial. A Anthropic, criadora do assistente de IA Claude e uma das concorrentes diretas da OpenAI, aceitou pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar uma ação coletiva movida por escritores que a acusam de usar cerca de 500 mil livros piratas para treinar seus modelos sem autorização.
O acordo, aprovado pela Justiça americana, deveria ser simples: quem perde direitos ganha dinheiro. Mas a regra de divisão virou o novo campo de batalha. Para obras ainda sob contrato de catálogo vigente, editoras e autores dividem o valor meio a meio. Já para livros cujos direitos já reverteram ao autor — regra vale para reversões anteriores a 10 de agosto de 2022 —, o escritor deveria embolsar o pagamento integral.
Só que não é isso que está acontecendo, segundo relatos recolhidos pela TechCrunch. A autora April Henry diz que a HarperCollins, uma das maiores editoras do mundo, reivindicou uma fatia de pagamento por um título cujos direitos voltaram para ela há 17 anos. Courtney Milan, escritora e ex-estagiária de direito, denunciou agentes literários tentando reivindicar percentual sobre livros dos quais não têm mais nenhuma parte contratual vigente. Victoria Strauss, do grupo de vigilância Writers Beware, chama o padrão de "sistêmico" — não são casos isolados de erro administrativo.
Quem ganha e quem perde nessa etapa: editoras e agências com times jurídicos maiores têm vantagem para reivindicar rápido, enquanto autores individuais — muitos sem advogado dedicado — dependem de contestar reivindicações que já entraram no sistema do acordo. Para a Anthropic, o capítulo já está encerrado: pagou, ficou nos holofotes o tempo suficiente, e agora observa de fora enquanto editoras e autores brigam pelos restos.
Fica a pergunta que o acordo não responde: quantos dos 500 mil livros vão de fato pagar ao autor certo, e quantos vão parar no bolso de quem só administra o contrato?