
Dois anos de brigas mostram que todo mundo acha um motivo para odiar data center
Um levantamento etnográfico de 18 meses com 44 moradores da Pensilvânia revela que a oposição a data centers de IA não segue linha partidária — e reúne desde ambientalistas até eleitores conservadores desconfiados de acordos de confidencialidade.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
A pesquisa que ouviu quem mora do lado do data center
Uma organização de pesquisa americana, a Data & Society, publicou um levantamento etnográfico de 18 meses (2024-2026) ouvindo 44 moradores da Pensilvânia sobre o boom de data centers de inteligência artificial no estado. A conclusão central: a oposição não é bipartidária, é "pós-partidária" — reúne gente de espectros políticos opostos em torno das mesmas queixas.
Segundo a pesquisadora Livia Garofalo, da Data & Society, "uma das forças da etnografia e da pesquisa de campo por um período prolongado é furar a bolha do hype de IA". A coautora do relatório, Maia Woluchem, também assina o estudo.
Os motivos vão de conta de luz a desconfiança de contrato
Entre as queixas levantadas pelos entrevistados estão: aumento nas contas de eletricidade, desvalorização de imóveis próximos às instalações, consumo de água, emissões associadas à geração de energia, preocupações com saúde pública, desconfiança das práticas corporativas — incluindo acordos de confidencialidade que limitam o que moradores e até autoridades locais podem saber sobre os projetos — e rejeição à tecnologia de IA em si.
Amazon, Meta, Microsoft, OpenAI e Anthropic — as duas últimas, empresas de inteligência artificial pouco conhecidas do grande público além do universo de tecnologia — aparecem entre as companhias associadas à expansão de data centers no estado.
Da cúpula de investimento ao recuo do governo
A linha do tempo ajuda a entender a virada de humor: em julho de 2025, o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, participou de uma cúpula celebrando US$ 90 bilhões em investimentos prometidos em data centers e infraestrutura de IA no estado. Um ano depois, em julho de 2026, o próprio Shapiro assinou uma ordem impondo novos requisitos a esses projetos e retirando alguns deles do programa estadual de licenciamento acelerado.
O cenário não é só da Pensilvânia: mais de 60% dos americanos hoje dizem apoiar algum tipo de limitação a novos data centers perto de onde moram, e US$ 68 bilhões em projetos foram interrompidos ou atrasados só no segundo trimestre de 2026 no país. A reportagem não indica quem, no fim, fiscaliza o cumprimento dos acordos de confidencialidade citados pelos moradores — um ponto que segue sem resposta clara.