
El Niño deixa o Pacífico mais azul e ameaça a base da vida marinha
Satélite PACE, da NASA, flagrou a redução do fitoplâncton no Pacífico equatorial durante o que pode ser o El Niño mais forte desde 1950. Cientistas associam a mudança de cor do oceano ao enfraquecimento da cadeia alimentar marinha.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Para escala humana
Imagine uma faixa de água esverdeada cobrindo o oceano Pacífico desde a América Latina até o Sudeste Asiático — maior que a distância entre Brasil e Indonésia. Foi isso que satélites da NASA registraram ao longo de 2025. Agora, em 2026, essa faixa perdeu força e o oceano apareceu visivelmente mais azul nas imagens captadas do espaço. Para quem está em terra, a diferença de cor pode parecer sutil, mas para os cientistas é sinal de que a base de toda a cadeia alimentar marinha está encolhendo.
O que os dados do satélite confirmam
A mudança foi captada pelo PACE (Plankton, Aerosol, Cloud, ocean Ecosystem), satélite da NASA lançado em 2024 e equipado com o Ocean Color Instrument, capaz de medir centenas de comprimentos de onda de luz refletidos pela água quase em tempo real. É o primeiro El Niño observado por esse instrumento, o que permite identificar com mais detalhe quais comunidades de fitoplâncton estão respondendo à mudança nas águas.
Segundo a NASA, as águas equatoriais do Pacífico ficaram "mensuravelmente mais azuis" em 2026. Isso acontece porque o fitoplâncton — organismo microscópico que dá a cor verde à água e sustenta toda a cadeia alimentar marinha — diminuiu. A NOAA estima em 83% a chance de este ser o El Niño mais forte desde 1950, com temperaturas cerca de 1,7°C acima da média no Pacífico oriental.
O que é hipótese dos cientistas
A explicação para a queda do fitoplâncton é a seguinte: o El Niño enfraquece os ventos alísios, que normalmente empurram águas profundas e ricas em nutrientes para a superfície. Sem esse processo de ressurgência, a água superficial fica mais pobre em nutrientes e o fitoplâncton tem menos o que "comer" — daí a cor mais azulada.
A partir daqui, o que existe é projeção: pesquisadores da NASA apontam que a queda do fitoplâncton pode afetar krill, zooplâncton e moluscos filtradores, provocando um efeito cascata até espécies maiores, como atuns e anchovas, que tenderiam a migrar para águas mais frias. Relatos de pescadores na costa do Pacífico latino-americano mencionam redes "parcialmente vazias", mas a cadeia causal completa ainda está sendo investigada pelos cientistas com os dados do PACE.
Por que isso importa
"Algumas pessoas pensam na água como algo simplesmente azul, mas é incrível a multiplicidade de cores que o oceano pode ter", disse Matthew Kehrli, cientista-chefe da equipe do PACE no Goddard Space Flight Center, da NASA. Já Josh Willis, do Laboratório de Propulsão a Jato da agência, compara as ondas de Kelvin que caracterizam o fenômeno a "batimentos cardíacos do El Niño" monitorados por satélites de nível do mar. Para os pesquisadores, acompanhar esse El Niño com instrumentos inéditos é uma chance rara de entender, com mais precisão, como o oceano reage ao aquecimento — e o que isso significa para quem depende da pesca para viver.