
El Niño está mais forte que em qualquer momento dos últimos 1.000 anos
Estudo publicado na Science reconstruiu 1.000 anos de temperatura do Pacífico a partir de corais de Galápagos e encontrou o El Niño 36,5% mais intenso nos últimos 40 anos que na era pré-industrial.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagina reconstruir mil anos de temperatura do oceano lendo o esqueleto de um coral, camada por camada, como quem lê os anéis de uma árvore. Foi mais ou menos isso que um grupo de pesquisadores liderado por Julia Cole, da Universidade de Michigan, fez nas Ilhas Galápagos — e o resultado é o tipo de dado que devia deixar qualquer um desconfortável: o El Niño atual é mais forte do que em qualquer ponto do último milênio.
O que está confirmado
O estudo, publicado na revista Science, usou núcleos de corais vivos e subfósseis coletados no arquipélago equatoriano para reconstruir a variabilidade de temperatura do Pacífico oriental — a região que comanda o fenômeno El Niño — ao longo de cerca de mil anos. A equipe mediu a razão entre estrôncio e cálcio e as proporções de isótopos de oxigênio no esqueleto dos corais, marcadores que variam conforme a temperatura da água em que o animal cresceu.
O número central do trabalho é direto: nos últimos 40 anos, os eventos de El Niño ficaram 36,5% mais fortes (margem de erro de 8 pontos percentuais) do que na era pré-industrial, período anterior a 1850. Na comparação com o século 20, o salto é de 16,2%. Cole resume o achado sem meio-termo: "We don't see a time in the past where El Niños have been as strong as today" — não há registro, em toda a série reconstruída, de um El Niño tão intenso quanto os de hoje. Os pesquisadores também compararam a reconstrução com simulações de 12 modelos climáticos do último milênio; em nenhum deles a variabilidade natural sozinha explica o salto observado nos corais.
O que ainda é hipótese
Aqui a ciência é mais cautelosa. O mecanismo exato que liga o aquecimento global ao fortalecimento do El Niño ainda é debatido — a própria Cole reconhece que o fenômeno se soma ao aquecimento de fundo, mas a atribuição de causa e efeito completa segue em estudo. Outros cientistas, como a climatologista Samantha Stevenson, da UC Santa Barbara, notam que nenhum modelo climático havia antecipado um aumento dessa magnitude.
Por que isso importa agora
O timing não é coincidência: o El Niño de 2026 é dado como favorito a se tornar o mais forte já registrado, superando os de 2015, 1997 e 1982, com pico esperado para o fim do ano. Como resume o próprio estudo, é mais um sinal de alerta do que esperar de um mundo mais quente.