
Empresas recontratam quem a IA substituiu, mas pagando menos
Estudo da consultoria Forrester mostra que metade das demissões atribuídas à IA deve ser revertida — só que com salários menores ou vagas transferidas para o exterior.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O bumerangue que volta mais barato
Se você já jogou bumerangue sabe que ele volta — mas raramente no mesmo lugar de onde saiu. É uma boa imagem para o que a consultoria Forrester está enxergando no mercado de trabalho americano: empresas que demitiram gente apostando todas as fichas na inteligência artificial estão, agora, recontratando para as mesmas funções. Só que pagando menos.
É importante não confundir este estudo com aquele, já noticiado por aqui, da Apollo Global Management sobre compressão salarial. São pesquisas diferentes, de instituições diferentes, olhando para ângulos diferentes do mesmo fenômeno: o tropeço das empresas ao tentar substituir gente por algoritmo rápido demais.
Foto: reprodução/theregister.com
O que diz a Forrester
Segundo reportagem do site The Next Web, replicada pelo Canaltech, a Forrester estima que 55% dos empregadores se arrependem de ter cortado equipes por causa da IA — e prevê que metade das demissões atribuídas à tecnologia será revertida. O relatório é direto sobre o que isso significa na prática: "grande parte desse trabalho será entregue a trabalhadores de salário mais baixo, no exterior ou com salário menor".
Em bom português: a empresa admite o erro, mas não paga o pato inteiro. Ela recontrata, sim — só que redesenha o cargo para custar menos, ou manda a vaga para outro país onde a mão de obra sai mais barata.
Automatizar não é o mesmo que eliminar
Um levantamento da consultoria Robert Half, citado pela Forbes, mostra que mais de três em cada dez gestores de contratação nos Estados Unidos que cortaram posições após adotar IA precisaram recriar essas vagas ou funções muito parecidas — 29% das organizações que eliminaram cargos ligados à IA já recontrataram gente para eles. A Ford recontratou mais de 300 ex-funcionários em junho, depois de perceber que a qualidade da produção não se sustentava só com automação. O Commonwealth Bank of Australia cortou cerca de 45 vagas de atendimento ao instalar um assistente de voz com IA, reverteu a decisão e chamou os antigos funcionários de volta. A Gartner projeta que, até 2027, metade das empresas que reduziram equipes de atendimento por causa da IA vai precisar recontratar para tarefas parecidas.
O outro lado: nem toda demissão é culpa da IA
Um levantamento da Gartner aponta que menos de 1% das demissões registradas em 2025 estavam de fato ligadas a ganhos de produtividade com IA. A vice-presidente da consultoria, Alexandra Earl, descreve a prática do "AI washing": empresas atribuem cortes de pessoal à tecnologia mesmo quando o motivo real é financeiro ou estratégico. Na União Europeia, uma diretiva que passa a valer até janeiro de 2028 vai obrigar consulta prévia aos trabalhadores antes de decisões que afetem seus empregos. Vale o alerta final: os dados citados nesta reportagem refletem pesquisas dos Estados Unidos e da Europa; não há, até agora, levantamento equivalente sobre o cenário brasileiro.