
Engram: o sampler que transforma alucinações de IA em música estranha
A startup Thoughtful Things lançou no Kickstarter o Engram, um sampler que usa uma IA local para distorcer áudio e gerar sons glitch. Vale apoiar a campanha por US$ 675?
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
Um sampler que prefere o erro à perfeição
Enquanto boa parte da IA musical promete facilitar a vida de quem quer uma faixa pronta em segundos, o Engram vai na direção contrária. É a aposta da Thoughtful Things — startup americana de música praticamente desconhecida por aqui, criada pelo desenvolvedor Evan King — para um sampler/groovebox que usa uma IA de áudio treinada sob encomenda, rodando localmente e sem depender de internet, para "alucinar" e distorcer sons captados em tempo real.
Na prática, o usuário grava um som (voz, instrumento, qualquer coisa que entre pelo microfone embutido ou pela entrada estéreo) e o Engram processa esse áudio através de um modelo neural compacto, produzindo variações glitch, quebradas e imprevisíveis — o equivalente sonoro ao circuit bending, só que aplicado a redes neurais em vez de fios e resistores. O próprio fundador resume a proposta com uma frase que virou o mote do produto: pensar no Engram como "a field recorder for latent space" (um gravador de campo para o espaço latente da IA).
Como funciona no dia a dia
O equipamento reúne, num só corpo, o workflow clássico de um sampler de 16 pads com parâmetros de "model bending" para forçar o processamento neural ao limite. Dá para trocar os modelos de áudio embarcados, salvar padrões e amostras, conectar via MIDI e CV para integrar com outros equipamentos do estúdio, e até dar comandos por voz — em uma demonstração, ao pedir "piano" ao dispositivo, o resultado foi um som deliberadamente glitchado, longe de um piano reconhecível. A Thoughtful Things também promete abrir o firmware em código aberto, permitindo carregar modelos próprios.
A empresa fez questão de declarar que os modelos foram treinados só com dados abertos e licenciados para uso comercial (CC-BY ou equivalente), sem áudio pirata — um aceno direto às críticas que perseguem ferramentas de IA generativa.
Engram x Suno: caminhos opostos
A comparação mais direta feita pela imprensa é com a Suno, startup de geração musical por IA que virou sinônimo de criar faixas prontas a partir de um prompt de texto. O próprio Evan King foi categórico: "isso não é a Suno numa caixa". Não há intenção de gerar algo "pronto para o topo das paradas" com um clique — o Engram quer justamente o oposto, valorizando o erro e o imprevisível como material criativo, não como bug a corrigir.
Vale apoiar a campanha?
No Kickstarter, o pledge early bird custa US$ 675, com desconto de 30% sobre um preço de varejo estimado entre US$ 850 e US$ 900 — sem conversão oficial para reais nem previsão de venda no Brasil. É a estreia da Thoughtful Things no mercado de instrumentos, o que naturalmente pede cautela: crowdfunding de hardware musical tem histórico de atrasos. Para quem já flerta com sampler analógico, circuit bending ou só quer fugir do óbvio da IA generativa "que acerta sempre", o Engram é tentador. Para quem busca praticidade e resultado imediato, talvez seja melhor esperar as primeiras unidades chegarem às mãos de early adopters antes de apostar.