
Enquanto Amazon veta IA, Walmart abre as portas para agentes de compra
O Walmart lança o Agent Gateway, servidor que permite a agentes de IA como ChatGPT, Gemini e Muse comprar em seu site com limites de gasto definidos pelo cliente. A Amazon, no mesmo momento, bloqueia esses mesmos assistentes.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Dois gigantes, duas apostas opostas
A partir do mês que vem, o Walmart vai deixar agentes de IA comprarem em seu nome dentro do próprio site — com limite de gasto definido pelo cliente, por exemplo até 100 dólares, ou exigindo aprovação a cada transação. É a aposta mais agressiva de um varejista em comércio agêntico até agora, e ela nasce justamente no momento em que a Amazon faz o movimento inverso: bloqueou agentes como o Muse, da Meta, e o assistente de compras da Perplexity, impedindo-os de operar em seu marketplace.
Como funciona o Agent Gateway
O núcleo da novidade chama-se Agent Gateway, um servidor baseado no Model Context Protocol (MCP) — padrão criado pela Anthropic para conectar modelos de IA a ferramentas e fontes de dados externas. Por meio dele, agentes aprovados de parceiros como ChatGPT, Gemini e Muse podem buscar produtos no catálogo do Walmart e do Sam's Club e fechar compras em nome do usuário.
A segunda peça são os Agent Profiles, que chegam em novembro. Cada agente autorizado pelo cliente ganha um perfil próprio vinculado à conta Walmart, separando as compras feitas pela IA das compras feitas manualmente pela pessoa. A empresa compara o modelo a adicionar alguém como usuário autorizado num cartão de crédito: as transações ficam identificadas e o titular pode limitar os gastos.
Os freios: quem manda no cartão
O Walmart deixou claro que a confiança tem limites técnicos. Por padrão, toda compra feita por agente de IA exige aprovação explícita do cliente; é possível liberar um orçamento fixo para compras automáticas, mas os agentes não podem acessar números de cartão, alterar a forma de pagamento ou agir além do que o usuário autorizou. Qualquer agente que descumprir as regras pode ser bloqueado pela varejista.
Quem ganha e quem perde
A divergência expõe duas teses de negócio. O Walmart aposta que abrir a porta para assistentes de IA aumenta vendas e fidelização, posicionando-se como destino preferencial quando o consumidor delega a decisão de compra a um agente — e evita ficar de fora caso o comércio agêntico vire hábito. A Amazon, por sua vez, protege sua própria vitrine de dados e margem: deixar um agente de terceiros fazer a cotação e a compra significa perder controle sobre recomendações, publicidade e relação direta com o cliente, algo que a varejista prefere reservar para seus próprios assistentes.
No curto prazo, o consumidor que já usa ChatGPT, Gemini ou Muse para tarefas do dia a dia ganha um canal de compra a mais dentro do Walmart. Para a Amazon, a aposta é que manter o controle total da experiência — mesmo que isso signifique fechar a porta para agentes externos — compensa no longo prazo.
Atualização (22/10, 13:09): Atualização (22/10/2026): Uma reportagem do The Verge ampliou o quadro sobre o bloqueio de agentes de compra por IA e mostrou que o impasse vai muito além da disputa entre Amazon e Walmart. Segundo a publicação, a Amazon também bloqueou o Muse, o agente de compras da Meta, exibindo um pop-up alertando que o acesso não é autorizado — a mesma barreira já aplicada a agentes da OpenAI, Google, Anthropic e Perplexity. A varejista de luxo de segunda mão RealReal, por sua vez, mantém o acesso de agentes terceirizados, mas com restrições: um teste identificado pela reportagem mostrou um agente conseguindo travar 10 itens no carrinho por meio de renovações sucessivas da reserva de 20 minutos, monopolizando peças únicas e distorcendo a experiência de compra para usuários humanos.
Já a Target adota uma postura mais aberta, permitindo que apenas quatro agentes nominalmente autorizados façam compras em seu site — um meio-termo entre o veto total da Amazon e a liberação ampla adotada pelo Walmart. O motivo citado pelos varejistas que bloqueiam o acesso é recorrente: agentes que não se identificam ao navegar, não avisam previamente sobre o acesso automatizado e, em alguns casos, chegam a capturar e armazenar credenciais de pagamento dos usuários, levantando preocupações de segurança e privacidade — acusação que a Meta nega, afirmando que o Muse não tem visibilidade sobre senhas ou dados de pagamento, que ficam em um armazenamento seguro.