
Escudo térmico da Orion se saiu bem melhor do que se temia, diz painel da NASA
Após o pouso da Artemis II em abril, inspeções mostraram queda drástica no desgaste do escudo térmico que preocupou engenheiros desde a Artemis I. Painel independente de segurança da NASA respalda as conclusões da agência.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: o escudo térmico da cápsula Orion tem cerca de 5 metros de diâmetro e precisa suportar temperaturas de reentrada que chegam a milhares de graus Celsius, mais quentes do que a superfície do Sol em alguns trechos. É essa peça, motivo de anos de dor de cabeça na NASA, que finalmente teve seu teste real de fogo.
O que está confirmado
Quando a cápsula da Artemis I, não tripulada, voltou à Terra em 2022, engenheiros encontraram rachaduras e perda de material carbonizado (o chamado "char loss") em várias partes do escudo, feito de um material ablativo chamado Avcoat. A causa raiz, segundo a NASA, foi que gases gerados dentro do Avcoat durante a reentrada não conseguiram se dissipar como esperado — o material funcionou como "impermeável", e a pressão acumulada rachou pedaços da superfície carbonizada.
Em resposta, a NASA mudou a forma de aplicar o revestimento do escudo e alterou a trajetória de reentrada da Orion para a missão seguinte, a Artemis II, a primeira com astronautas a bordo, que amerissou em 10 de abril de 2026.
Após o pouso, imagens de mergulhadores tiradas logo depois da amerissagem e inspeções posteriores no navio de recuperação mostraram que o desgaste por perda de material carbonizado observado na Artemis I foi "significativamente reduzido", tanto em quantidade quanto em tamanho dos pontos afetados. O desempenho ficou consistente com os testes em solo feitos após a Artemis I, em instalações de jato de arco.
O que é avaliação de especialista
O administrador da NASA, Jared Isaacman, disse que as inspeções não revelaram "condições inesperadas" e afirmou esperar que, quando as imagens completas forem divulgadas, fique "bem óbvia uma diferença gritante" entre o desempenho dos escudos da Artemis I e da Artemis II. É uma leitura otimista da agência, não um número fechado de redução de dano.
A avaliação da NASA foi respaldada por uma equipe de revisão independente liderada por Paul Hill, ex-diretor de voo do programa do ônibus espacial e integrante do Painel Consultivo de Segurança Aeroespacial (ASAP) da NASA, órgão que reporta diretamente à administração da agência. O painel já havia analisado as conclusões da NASA sobre a causa da rachadura na primavera de 2024 e não identificou riscos de segurança para as próximas missões.
O que ainda falta
A NASA ainda não divulgou publicamente todas as imagens em alta resolução do escudo pós-voo nem um relatório técnico final e detalhado com percentuais exatos de redução do char loss. Até lá, a leitura de que o escudo "se saiu bem" combina dados de inspeção confirmados com a interpretação de engenheiros e do painel de segurança — ainda não é o veredito documental completo.