Espaçonave russa Orel: 17 anos de projeto e voo tripulado adiado para 2028
Anunciada como substituta reutilizável da Soyuz, a cápsula Orel acumula quase duas décadas de atrasos e ainda não tem data confirmada de voo. A Roscosmos promete testes em 2028, mas o histórico do programa pede cautela.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Um projeto que já dura quase duas décadas
Se o cronograma original tivesse sido cumprido, a Rússia já estaria voando sua nova geração de espaçonaves tripuladas há mais de uma década. Em vez disso, o programa que hoje atende pelo nome Orel ("Águia", em russo) segue em desenvolvimento desde que a Roscosmos definiu os primeiros requisitos técnicos em 2009 — e o contrato formal de desenvolvimento com a fabricante RKK Energia só foi assinado em dezembro de 2013, com orçamento de 100 bilhões de rublos. Passaram-se mais de 12 anos desde então, e nenhum protótipo de voo chegou ao espaço.
O que é confirmado
- O projeto trocou de nome pelo menos três vezes: começou como PPTS/PTK NP na fase de definição (2009–2016), recebeu o nome Federatsiya ("Federação") em concurso público em 2016 e foi rebatizado Orel em 2019.
- O plano original previa primeiro voo não tripulado em 2023 e primeiro voo com cosmonautas a bordo em 2025 — nenhuma das duas datas foi cumprida.
- Em novembro de 2023, Vladimir Soloviov, engenheiro-chefe da RKK Energia, declarou à agência Interfax que a expectativa era levar cosmonautas ao espaço "em 2028-2029".
- Até o momento, apenas maquetes estáticas e componentes em fabricação foram mostrados publicamente — não há protótipo de voo pronto.
- O veículo lançador definido para o Orel é o foguete Angara A5, a partir do cosmódromo de Vostochny.
O que ainda é promessa da Roscosmos
Diferente dos marcos já ultrapassados, as datas mais recentes — voo não tripulado "não antes de 2028" e voo tripulado em 2028-2029 — continuam sendo apenas anúncios da agência espacial russa e de sua principal contratada, sem confirmação independente. A Rússia também associa o Orel a planos ainda mais distantes: servir a futura Estação Orbital Russa (ROSS) e eventualmente apoiar missões à órbita lunar, em comparação direta com a cápsula Orion, da NASA. Nenhum desses usos tem data operacional confirmada.
Por que o ceticismo é justificado
O histórico do programa é o de adiamentos sucessivos: a data de estreia já foi projetada para 2018, depois 2022, depois 2023, e agora 2028. Cortes orçamentários forçaram múltiplos redesenhos do escudo térmico, do sistema de pouso e do sistema de escape de emergência ao longo da última década. Para a Ars Technica, esse padrão reforça a leitura de que o Orel segue sendo, acima de tudo, um projeto "promissor" no papel.