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Ciência11 de ago. de 2026, 00:15

Espelhos espaciais: sonho de luz solar 24h ameaça astronomia e visão

A FCC liberou o satélite-espelho Eärendil-1, da Reflect Orbital, para refletir luz do Sol à noite — mas astrônomos alertam para risco de dano ocular e caos em observatórios. A ideia não é nova: a Rússia já tentou algo parecido nos anos 1990.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagina um espelho do tamanho de uma quadra de tênis — 18 por 18 metros — girando a 625 km de altura e devolvendo luz do Sol pra um pedaço específico da Terra, criando uma mancha de claridade de 5 km de largura que atravessa o céu a mais de 20 mil km/h. É basicamente ligar um holofote cósmico por cima da sua cidade. É esse o plano, hoje, de mais de uma empresa — e ele já preocupa astrônomos o suficiente pra virar caso na agência reguladora dos EUA.

O que é fato confirmado

Em 9 de julho de 2026, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) aprovou o lançamento do Eärendil-1, satélite de demonstração da startup californiana Reflect Orbital. O equipamento é um refletor de mylar aluminizado de 18 x 18 metros, com cerca de 324 m² de área e apenas 16 kg de massa, que se desdobra em órbita por um mecanismo do tipo origami. Ele deve orbitar a Terra a cerca de 625 km de altitude e, em cada passagem, projetar luz solar refletida sobre uma área de aproximadamente 5 km de diâmetro no solo, por poucos minutos.

A Reflect Orbital diz que o objetivo final é vender "luz solar sob demanda" para usinas solares, permitindo que elas continuem gerando energia depois do pôr do sol — e a empresa já fala em lançar dezenas de milhares desses satélites no futuro.

A American Astronomical Society (AAS) formalizou preocupação junto à FCC: segundo a entidade, há risco real de dano ocular para quem observar o brilho refletido através de telescópios amadores de abertura maior, um efeito comparável ao de olhar diretamente para um eclipse solar parcial sem proteção. A FCC, por sua vez, respondeu que questões ambientais e de segurança estão fora do escopo de sua análise, que se limita ao uso do espectro de radiofrequência — deixando os riscos para astronomia, fauna noturna e segurança pública sem avaliação de nenhum órgão federal.

O que já foi testado — e o que ainda é promessa

A ideia não nasceu agora. Nos anos 1990, a extinta agência espacial russa testou o conceito com o projeto Znamya ("bandeira", em russo), liderado pelo engenheiro Vladimir Syromyatnikov. Em fevereiro de 1993, o Znamya 2 desdobrou, a partir da estação Mir, um refletor de mylar de 20 metros de diâmetro, sem estrutura rígida — girando para se manter esticado por força centrífuga. O experimento funcionou: produziu um ponto de luz de 5 km de largura, com brilho equivalente ao da lua cheia, que cruzou a Europa a 8 km/s. Uma segunda tentativa, o Znamya 2.5, falhou ao se desdobrar, e o programa foi abandonado depois disso.

O restante é projeto, não realidade operacional: a promessa de energia solar disponível a qualquer hora do dia, a expansão para uma constelação massiva de satélites e o próprio uso comercial em larga escala ainda dependem do sucesso do Eärendil-1 e de aprovações futuras. Por ora, o que existe é uma licença da FCC, um protótipo a caminho do lançamento e um coro crescente de astrônomos pedindo cautela antes que o céu noturno ganhe um novo tipo de poluição — luminosa e, possivelmente, perigosa para quem olha pra cima.

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