
Esta galáxia pode não ter estrela nenhuma, intrigando astrônomos
Novas imagens do telescópio espacial Hubble, dez vezes mais sensíveis que observações anteriores, não encontraram sinais de estrelas na Cloud-9, enorme nuvem de hidrogênio e matéria escura perto da galáxia M94.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine uma nuvem de gás com quase 5 mil anos-luz de diâmetro — distância que a luz levaria quase 5 mil anos para atravessar — e que, mesmo assim, não conseguiu formar uma única estrela. É esse o quebra-cabeça chamado Cloud-9, e as imagens mais recentes só aumentaram o mistério.
O que já está confirmado
Cloud-9 é uma nuvem de hidrogênio neutro localizada perto da galáxia Messier 94 (M94), com cerca de 4,9 mil anos-luz de extensão e aproximadamente 1 milhão de massas solares de gás. Ela foi observada com o telescópio espacial Hubble, da NASA, usando a câmera Advanced Camera for Surveys, em um trabalho conduzido por pesquisadores do Space Telescope Science Institute (STScI) — instituto responsável por operar as observações científicas do Hubble —, entre eles Gagandeep Anand e Andrew Fox.
O dado mais duro é negativo: as novas imagens, cerca de dez vezes mais sensíveis que observações anteriores, não detectaram nenhum sinal de luz estelar dentro da nuvem. Isso permitiu aos cientistas estabelecer um teto para a quantidade de estrelas que poderiam existir ali — no máximo 16 mil massas solares em estrelas, uma fração ínfima perto do total de matéria da estrutura.
Essa desproporção aparece também na relação entre matéria escura e matéria comum: em Cloud-9, estima-se algo em torno de 5.000 partes de matéria escura para cada parte de gás comum, muito acima da proporção de cerca de 5 para 1 observada em galáxias típicas.
O que ainda é hipótese
A explicação mais aceita pela equipe é que Cloud-9 seria o primeiro exemplo bem caracterizado de uma classe teórica de objetos chamada RELHIC (sigla em inglês para nuvem de hidrogênio limitada pela reionização) — um halo de matéria escura grande o bastante para reter gás por bilhões de anos, mas não o suficiente para comprimi-lo até o ponto de ignição estelar. Seria, em tese, uma "galáxia fracassada": nem massiva demais a ponto de colapsar em estrelas, nem pequena demais para perder o gás para o espaço.
Se confirmada, a hipótese apoiaria uma previsão antiga do modelo cosmológico padrão (Lambda-CDM), segundo o qual nem todo halo de matéria escura abaixo de certa massa chega a abrigar uma galáxia visível. Mas os próprios pesquisadores tratam isso como um cenário a ser testado com mais observações, não como um fato fechado — afinal, provar a ausência de estrelas é sempre mais difícil do que provar a presença delas.
Novas rodadas de observação, incluindo dados em rádio que ajudaram a mapear o gás originalmente, devem tentar confirmar se Cloud-9 é mesmo um exemplar único ou o primeiro de uma população maior desses objetos invisíveis a olho nu — e, por enquanto, também às câmeras mais sensíveis já apontadas para ela.