
Estrutura de pedras achada no Google Earth intriga arqueólogos nos Andes
Um montanhista identificou formações circulares e corredores de pedra a mais de 3 mil metros de altitude na Argentina. Pesquisadores do projeto ArqueoAndes vão investigar se o sítio teve função cerimonial inca.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine subir quase 4 dias a pé, sem sinal de celular e sem água por perto, para chegar a um ponto mais alto que a maioria das estações de esqui dos Andes — e encontrar, no meio do nada, um conjunto de pedras organizadas em círculos, corredores e salas retangulares. Foi isso que uma expedição viveu na Cordilheira do Tigre, na província de Mendoza, Argentina, a mais de 3 mil metros de altitude.
O que é confirmado
A descoberta começou na tela de um computador. O montanhista argentino Carlos Gobbi, que há quase 30 anos percorre a região em busca de sítios arqueológicos, identificou a formação em imagens do Google Earth em maio de 2025. A primeira visita presencial só aconteceu em 14 de fevereiro de 2026, quando Gobbi chegou ao local acompanhado de Adrián Radich e Gabriel Orofino, após uma jornada de cerca de quatro dias em terreno remoto, sem fontes de água próximas e sem cobertura de telefone.
No local, a equipe confirmou a existência de estruturas circulares interligadas por corredores, além de setores retangulares. Há trechos escavados e revestidos com pedras, alguns elevados com pirâmides de rochas empilhadas (as chamadas pircas) e outros parcialmente enterrados. Vista de cima, a disposição das pedras sugere um possível geoglifo. Até agora, a equipe não encontrou fragmentos de cerâmica nem restos de alimentos na superfície do sítio.
O que ainda é hipótese
Os pesquisadores ainda não sabem a idade nem a função exata da estrutura. Uma das hipóteses é que o sítio tenha sido usado para fins cerimoniais durante o período inca, entre os séculos XV e XVI, mas os arqueólogos não descartam que a construção seja anterior ou posterior a essa época, nem que tenha servido como acampamento sazonal. A ausência de cerâmica e de sinais de ocupação permanente reforça a suspeita de um uso simbólico ou ritual, mas isso ainda precisa ser comprovado em campo.
Quem está por trás da investigação
O estudo é conduzido pelo projeto ArqueoAndes, parceria entre pesquisadores da Argentina e da Espanha dedicada a investigar transformações históricas na paisagem de alta montanha dos Andes. Participam as arqueólogas Cristina Prieto-Olavarría e Horacio Chiavazza, com apoio do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais (Conicet), vinculado ao conselho nacional de pesquisas científicas da Argentina, além da Universidade Nacional de Cuyo e da Universidade de Jaén, na Espanha.
Uma nova expedição está prevista para dezembro de 2026, com mapeamento por drones, GPS de precisão, escavações e coleta de sedimentos para tentar datar a estrutura e reconstruir as condições ambientais da época em que foi erguida. Até lá, o geoglifo andino segue guardando mais perguntas do que respostas.