
Estudo com 427 registros mostra primatas criando laços com outras espécies
Levantamento publicado na revista Primates reuniu 427 casos de interação amistosa entre 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, incluindo brincadeiras, cuidados de higiene e até adoção entre espécies diferentes.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um macaco-prego cuidando de um filhote de sagui como se fosse seu
No Brasil, pesquisadores registraram uma fêmea de macaco-prego selvagem adotando e amamentando, por meses, o filhote de uma espécie completamente diferente: o sagui. Esse é só um dos 427 casos catalogados por um estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Primates, que investigou até que ponto o hábito de criar vínculos afetivos com animais de outras espécies é exclusividade humana — ou não.
O que está confirmado
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
A pesquisa, liderada por Cyril C. Grueter, da School of Anthropology and Museum Ethnography da Universidade de Oxford, reuniu 427 registros de interações sociais entre primatas e outros animais, sendo 303 retirados da literatura científica, 58 de imagens e vídeos e 66 coletados por meio de questionário aplicado a primatólogos. Ao todo, entraram na análise 88 espécies de primatas interagindo com 127 espécies parceiras — 72 de outros primatas e 55 de animais fora da ordem, como cães, porcos, cervos e esquilos-gigantes.
Os pesquisadores catalogaram 17 tipos de comportamento. Os mais comuns foram brincadeiras, com 139 registros, e cuidados de higiene (o famoso "catação"), com 136 casos. A lista inclui ainda contato corporal, ato de carregar o parceiro, proximidade voluntária, abraços e compartilhamento de alimento. Segundo o levantamento, 66% dessas interações foram iniciadas pelos próprios primatas.
Entre os exemplos citados no estudo estão macacos-de-cauda-curta brincando com cães domésticos na Tailândia, langures cinzentos tocando gentilmente esquilos-gigantes no Sri Lanka, macacos-japoneses andando sobre cervos, filhotes de macaco-de-focinho-achatado brincando com porcos domésticos na China — além do caso brasileiro de adoção entre macaco-prego e sagui.
O que ainda é hipótese
Os autores são cautelosos ao afastar esses comportamentos do conceito humano de "ter um bicho de estimação". Segundo o estudo, os episódios registrados não equivalem ao pet-keeping como praticado por humanos, mas podem representar blocos evolutivos que ajudam a explicar como essa relação de companhia entre espécies foi se formando ao longo do tempo. A equipe sugere que os achados abrem caminho para novos estudos sobre a evolução da empatia e da flexibilidade social — mas isso ainda é interpretação, não fato estabelecido pelos dados brutos.
Por que isso importa
A conclusão central do artigo é direta: a tendência de estabelecer relações sociais positivas com animais de outras espécies pode não ser uma característica exclusivamente humana. Para os pesquisadores, entender esses vínculos entre primatas selvagens e cativos ajuda a reconstruir a história evolutiva de um comportamento que, até agora, era tratado quase sempre como algo só nosso.