
Estudo coreano diz ter achado a noite exata de 'A Noite Estrelada'
Pesquisadores da SLLAB e da Universidade Kyung Hee cruzaram posições astronômicas e correspondências de Van Gogh e apontam a madrugada de 22 de julho de 1889 como a retratada na pintura. O estudo foi publicado na Scientific Reports.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine reconstruir, 137 anos depois, a posição exata da Lua, de um planeta e de um aglomerado de estrelas no céu sobre o sul da França só olhando para uma pintura guardada num museu de Nova York. É isso que um grupo de pesquisadores da Coreia do Sul diz ter feito com 'A Noite Estrelada', de Vincent van Gogh — uma das telas mais reproduzidas da história da arte.
O que foi confirmado
Foto: reprodução/nature.com
Segundo artigo publicado em 22 de outubro na revista científica Scientific Reports (do grupo Nature), o céu retratado por Van Gogh corresponde ao amanhecer de 22 de julho de 1889, visto do Asilo de Saint-Rémy-de-Provence, hospital psiquiátrico onde o pintor estava internado. O primeiro autor do estudo é Elijah Jeong-hyun Kim, CEO da SLLAB — empresa sul-coreana de ciência espacial — e doutorando na Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee. A pesquisa foi conduzida em parceria entre as duas instituições.
Os astrônomos identificaram na tela uma Lua minguante em fase crescente, o planeta Vênus e o aglomerado das Híades, na constelação de Touro — e não a constelação de Áries, como sugeriam estudos anteriores. Para chegar à data, a equipe cruzou a geometria observacional do céu daquele período com cartas de Van Gogh que mencionam o calor e cigarras, condições compatíveis com o verão europeu, além de terem viajado até o local para conferir o ângulo exato da janela do quarto do pintor.
O que é hipótese (ou reinterpretação)
A correspondência entre a posição dos astros na tela e o céu real daquela madrugada é o achado central do estudo, mas a reconstrução de qual trecho da paisagem Van Gogh via de fato da janela — e o quanto ele tomou liberdades artísticas na composição — permanece uma interpretação dos pesquisadores, não um registro documental do próprio pintor. Também vale registrar que o tema já dividia especialistas antes: Albert Boime, da UCLA, e Charles Whitney, de Harvard, chegaram a conclusões conflitantes sobre a data nas décadas de 1980, sem que nenhuma das duas se impusesse academicamente. O novo trabalho é descrito como a primeira revisão astronômica do quadro em cerca de 40 anos, mas isso não encerra automaticamente décadas de leituras simbólicas e religiosas da obra, que continuam válidas como camadas de interpretação artística.
Por que importa
Para a história da arte, o estudo reforça a tese de que Van Gogh partia de observações reais do céu noturno para depois reorganizá-las de forma expressiva na tela — e não que inventava os padrões estelares do zero. Para a astronomia, é mais um exemplo de como métodos de posicionamento de corpos celestes podem servir de ferramenta forense para datar obras de arte antigas com base em fenômenos astronômicos registrados nelas.