
Estudo propõe que fezes ajudaram a impulsionar a Explosão Cambriana
Pesquisadores argumentam que o acúmulo de matéria fecal no oceano, há 540 milhões de anos, ajudou a criar as condições para o surgimento da vida complexa.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine o fundo do oceano há 540 milhões de anos: sem cocô. Não porque os animais fossem limpos, mas porque praticamente nenhum bicho tinha sistema digestivo complexo o suficiente para produzir fezes reconhecíveis como tal. Foi só no início do período Cambriano que aparecem os primeiros coprólitos — fezes fossilizadas — no registro geológico. Para dois paleontólogos, essa coincidência de datas não é acaso: é a pista de que o cocô ajudou a destravar a explosão de vida complexa que se seguiu.
O que diz o estudo
A hipótese está numa revisão publicada na revista científica Trends in Ecology & Evolution, assinada pelos pesquisadores Julien Kimmig e Russell D. C. Bicknell. O argumento central: antes do Cambriano, a matéria orgânica se acumulava lentamente no fundo do mar, sem ser reciclada de forma eficiente. Quando animais com intestino e sistema digestivo mais sofisticado surgiram, passaram a processar e redistribuir esse material pelo oceano na forma de fezes — o que hoje os cientistas chamam de "bomba biológica" de carbono e nutrientes.
Confirmado vs. hipótese
O que é fato: os primeiros coprólitos confirmados datam do início do Cambriano, cerca de 540 milhões de anos atrás, e coincidem com o salto no registro fóssil de animais com digestão complexa, sobretudo artrópodes. O que é hipótese: que esse mecanismo — e não outros fatores já propostos, como aumento de oxigênio ou mudanças genéticas — foi um dos motores da explosão de diversidade biológica que criou, num intervalo geológico de 13 a 25 milhões de anos, praticamente todos os grandes grupos de animais que existem hoje.
Por que isso importa
A "bomba biológica" fecal continua ativa nos oceanos atuais, redistribuindo carbono e nutrientes essenciais à cadeia alimentar marinha. Entender como esse processo começou ajuda a explicar não só a origem da vida complexa, mas também como os oceanos regulam carbono hoje — dado relevante em meio às discussões sobre aquecimento global e captura de carbono oceânico. Os autores do estudo dizem que o próximo passo é buscar mais coprólitos do período pré-cambriano para testar se o padrão se confirma.