
Estudo propõe sonda para acompanhar retorno do cometa Halley em 2061
Pesquisadores da Khalifa University descrevem, em estudo ainda não revisado por pares, uma sonda capaz de viajar até 2060 e observar o Halley de perto — algo que nenhuma missão fez em 1986.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Quem viu o cometa Halley passar perto da Terra em 1986 tem, hoje, quase 40 anos a mais. Na próxima vez que ele se aproximar do Sol, em 2061, muita gente que testemunhou a passagem anterior não estará mais por aqui — e é por isso que cientistas já começam a desenhar, com décadas de antecedência, uma missão para acompanhá-lo de perto.
O que o estudo propõe
Pesquisadores da Khalifa University, universidade de ciência e tecnologia de Abu Dhabi, descrevem uma espaçonave de cerca de 2 mil kg — dos quais 750 kg seriam de instrumentos científicos — equipada com um propulsor de efeito Hall, tecnologia que dá empuxo contínuo e de baixa potência ao longo de toda a viagem, alimentada por um gerador termoelétrico de radioisótopos (RTG) já testado em outras missões espaciais.
A rota prevista usa duas assistências gravitacionais: primeiro em Júpiter, para ganhar velocidade, depois em Saturno, para ajustar a inclinação da trajetória e alinhar a sonda com a órbita retrógrada do cometa — o Halley viaja em sentido contrário ao da maioria dos planetas do Sistema Solar. As janelas de lançamento identificadas são agosto de 2036 ou setembro de 2037, com chegada ao cometa prevista para 2060, cerca de um ano antes de seu periélio (ponto mais próximo do Sol) em 2061.
O que é confirmado e o que ainda é hipótese
É fato que o estudo existe: foi publicado como preprint no arXiv, assinado por Roberto Flores e colegas, e detalha a trajetória com equações e simulações. O que ainda não existe é a missão em si — não há confirmação de nenhuma agência espacial de que o projeto será financiado ou construído. A diferença em relação às sondas de 1986 é o formato: em vez de um sobrevoo rápido, a proposta é literalmente acompanhar o cometa por um período prolongado enquanto ele esquenta perto do Sol, observando mudanças em tempo real no núcleo, na composição e no formato.
Por que vale esperar mais de 30 anos
Se aprovada e lançada em 2036 ou 2037, a sonda levaria mais de duas décadas só para chegar ao encontro em 2060. É o tipo de missão que exige financiamento e compromisso político por gerações de cientistas — um planejamento típico da exploração espacial, que raramente entrega resultados no mandato de quem aprovou o projeto.