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Ciência08 de ago. de 2026, 01:20

Estudo reconstrói o cérebro do dodô e muda visão sobre seus sentidos

Pesquisadores usaram tomografia de crânios raros para recriar digitalmente o espaço cerebral do dodô e descobriram um mundo sensorial diferente do de pombos e rolas vivos, com olfato aguçado, visão adaptada à penumbra e nenhuma prova de menor inteligência.

Por Redação tech & talk · Curadoria assistida por IA, revisão humana

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Detetives digitais reconstroem o cérebro de uma ave extinta

Um estudo internacional liderado pela Universidade de Lethbridge, no Canadá, reconstruiu digitalmente o espaço que o cérebro do dodô ocupava dentro do crânio e chegou a uma conclusão que contraria séculos de fama de ave "burra": o dodô tinha um mundo sensorial próprio, distinto do de pombos e rolas, seus parentes vivos mais próximos. O trabalho foi publicado na revista científica Zoological Journal of the Linnean Society.

A equipe, que reúne pesquisadores da Universidade de Lethbridge, da Universidade Flinders e do Natural History Museum Denmark, usou tomografia computadorizada de alta resolução para escanear os únicos dois crânios completos de dodô conhecidos no mundo — um guardado em Copenhague e outro no Oxford University Museum of Natural History —, além do crânio de um solitário-de-rodrigues, parente próximo também extinto. As imagens permitiram criar reconstruções tridimensionais da cavidade cerebral, chamadas de endocastos, sem danificar os raros espécimes.

Foto: reprodução/olhardigital.com.br

Visão de coruja, olfato apurado e bico sensível

Para entender como o dodô percebia o ambiente, os cientistas compararam os endocastos com dados de 36 espécies vivas de pombos e rolas, avaliando cavidades oculares, aberturas de nervos e o tamanho relativo de diferentes regiões cerebrais.

Os resultados mostram que os lóbulos ópticos do dodô eram proporcionalmente mais de três vezes menores que os do pombo-nicobar, indicando uma capacidade visual mais parecida com a de corujas — sinal de que a ave provavelmente tinha hábitos mais ativos ao amanhecer, ao entardecer ou até à noite, e não estritamente diurnos. Em compensação, os bulbos olfatórios eram maiores que os de outros pombos, sugerindo um olfato bem mais apurado. O nervo trigêmeo, ligado à sensibilidade do bico, também aparecia ampliado, o que aponta para maior capacidade de processar informações táteis através do grande bico da ave.

Foto: reprodução/phys.org

Já o solitário-de-rodrigues, apesar do crânio com formato peculiar, mostrou sistema sensorial semelhante ao dos pombos atuais — reforçando que as adaptações do dodô eram uma exceção, não a regra do grupo.

Nada de "burrice"

Um dos pontos centrais do estudo é desmontar a fama do dodô como animal de pouca inteligência. Segundo os pesquisadores, a região cerebral ligada à cognição era proporcional ao restante do cérebro, em linha com a de outros pombos — não havia sinal de capacidades reduzidas. A docilidade da ave diante de humanos e predadores introduzidos, que contribuiu para sua extinção no final do século 17 na ilha Maurício, é interpretada como reflexo de ter evoluído sem predadores naturais, e não de falta de inteligência.

Para a curadora Christy Anna Hipsley, do Natural History Museum Denmark, estudar animais extintos "é um pouco como trabalho de detetive", já que o cérebro deixa marcas na estrutura óssea que podem ser lidas milhões de anos — ou séculos — depois.

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