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Ciência18 de ago. de 2026, 16:54

Estudo revela como rituais funerários mudaram em tumba egípcia de 700 anos

Pesquisa em câmara da Tumba Tebana 209, perto de Luxor, mostra transição de sepultamentos individuais em caixões para múmias empilhadas sem caixão ao longo de sete séculos.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine uma mesma câmara funerária recebendo corpos por quase 700 anos — do século 8 a.C. até o período Ptolemaico. É esse o intervalo coberto pela Câmara Lateral 3 da Tumba Tebana 209 (TT 209), na necrópole de Tebas, perto de Luxor, no Egito, estudada por pesquisadores da Universiteit Leiden e da Universidad de La Laguna, na Espanha.

O que foi confirmado

Foto: reprodução/thenationalnews.com

O estudo, publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology, catalogou 17 indivíduos mumificados em posição primária ou parcialmente primária, além de um depósito secundário com restos de pelo menos mais quatro pessoas, com sinais de alteração térmica. Entre os achados também está um cão mumificado, posicionado sobre os membros inferiores de dois corpos humanos — um detalhe que chamou atenção dos autores.

Os pesquisadores Jared Carballo-Pérez e Miguel Ángel Molinero Polo documentaram uma mudança clara ao longo do tempo: nas fases iniciais, da 25ª Dinastia, os sepultamentos eram relativamente individualizados, com caixões e separação espacial entre os corpos. Já nas fases mais tardias, a câmara passou a receber novos corpos sobre espaços já ocupados, formando o que o artigo chama de "sistema acumulativo denso e verticalmente estruturado" no período Ptolemaico.

O que ainda é hipótese

Os autores evitam a leitura mais óbvia — a de que menos espaço individual por corpo significa declínio social das famílias enterradas ali. Segundo o estudo, a mudança reflete transformações nas práticas funerárias, não necessariamente perda de status econômico. É uma interpretação, não um fato estabelecido: o artigo não descarta que a pressão por espaço na necrópole tenha pesado na decisão, apenas argumenta que ela não explica tudo sozinha.

Sobre o cão mumificado, a hipótese levantada pelos pesquisadores é que o animal represente um psicopompo — guia simbólico do morto na jornada ao além. Não há inscrição ou imagem encontrada na própria câmara que confirme essa leitura diretamente; é uma inferência baseada em paralelos com outros contextos funerários egípcios.

Por que isso importa

O caso de TT 209 ajuda a entender como práticas funerárias evoluem dentro de uma mesma tumba usada por muitas gerações, sem que isso implique automaticamente decadência econômica. Para a arqueologia egípcia, é mais uma peça no quebra-cabeça de como o Egito antigo administrou espaço, memória e ritual ao longo de séculos de reuso funerário.

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