
Estudo revela que aves marinhas sofrem 'jet lag' ao cruzar o Atlântico
Pesquisa da Universidade de Oxford mostra que o bobo-pequeno perde a sincronia entre seu relógio interno e o horário solar ao voar rapidamente entre longitudes, cometendo erros previsíveis de navegação.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Pra escala humana: imagine desembarcar de um voo de Londres para Nova York e, no dia seguinte, precisar fazer um trabalho de precisão guiado só pela posição do sol no céu, sem celular, sem relógio ajustado, sem Wi-Fi para recalibrar o corpo. É mais ou menos isso que acontece com o bobo-pequeno (Puffinus puffinus), ave marinha que cria ninhos em ilhas do Reino Unido e da Irlanda e viaja centenas de quilômetros sobre o Oceano Atlântico em busca de comida. Segundo pesquisa liderada pela Universidade de Oxford, uma das mais tradicionais do mundo em biologia e ecologia animal, essas aves também sofrem uma espécie de jet lag, o mesmo desalinho de fuso horário que afeta humanos em voos longos.
O que foi confirmado pelo estudo
Foto: reprodução/npr.org
O trabalho, conduzido pelo pesquisador Patrick Lewin com o professor Tim Guilford, analisou 20 anos de rastreamento por GPS de 1.045 bobos-pequenos, totalizando 3.688 viagens de forrageamento. Os resultados foram publicados na revista científica Science no fim de outubro.
Os dados confirmam que as aves usam o sol como bússola para se orientar e resetam o relógio biológico interno a cada amanhecer. O problema é que, ao cruzarem rapidamente linhas de longitude — voando para leste ou para oeste em busca de alimento, a até mil quilômetros da colônia —, esse relógio interno fica dessincronizado do horário solar do lugar onde a ave está naquele momento, com defasagem que pode chegar a uma hora.
Essa dessincronia gera um erro de navegação mensurável: em média, 7 graus de desvio na rota de volta, com picos de até 15 graus em alguns casos. Num trajeto de mil quilômetros, isso representa cerca de 5 quilômetros adicionais de voo — pouco para um adulto experiente, mas potencialmente mais grave para filhotes em sua primeira migração, que podem se desviar por distâncias maiores.
O que ainda é hipótese
O que os cientistas ainda não sabem — e deixam como pergunta aberta — é o alcance real desse efeito sobre a sobrevivência das aves a longo prazo, e se o mesmo mecanismo se repete em outras espécies migratórias que cruzam oceanos. Também não está mapeado em detalhe o processo celular exato do relógio circadiano das aves, apenas que ele depende do nascer do sol como principal sinalizador.
Ainda assim, o achado chama atenção por unir dois campos — cronobiologia e navegação animal — para explicar um fenômeno que, até aqui, era tratado quase como folclore naturalista: a ideia de que bichos também se perdem no tempo.