
Etsy aperta regras para IA depois que compradores dizem não distinguir o real
Etsy proíbe listagens geradas só por robôs e instruções de IA para moldes e receitas, exigindo ao menos uma foto real do item. A medida tenta conter o "AI slop" que afasta compradores e irrita artesãos.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Quando a vitrine vira um labirinto de espelhos
Imagine entrar numa feira de artesanato e não conseguir dizer, olhando as barracas, quais peças foram feitas à mão e quais saíram de uma impressora controlada por um algoritmo. É basicamente o que vem acontecendo na Etsy, o marketplace americano conhecido por vender itens artesanais e vintage, e que anunciou em 22 de outubro um conjunto de regras mais estritas para o uso de inteligência artificial em seus anúncios.
A novidade não é proibir IA de uma vez — a empresa continua permitindo arte gerada por inteligência artificial, desde que o vendedor tenha "papel claro" na criação e seja transparente sobre o processo. O que muda é o tamanho da régua: ficam banidas as chamadas instruções funcionais feitas por IA, como receitas de cozinha, moldes de crochê, costura, bordado e tricô, manuais de montagem e projetos de marcenaria — categorias em que um erro de IA pode significar um suéter com manga errada ou um bolo que não cresce. Também fica proibida a listagem criada por robô sem qualquer envolvimento humano, e todo anúncio passa a precisar de pelo menos uma foto não editada do item de verdade, contra um fundo real.
Os dois lados do balcão
Do lado de quem compra, a reclamação é de confusão: boa parte dos clientes ativos da plataforma diz não conseguir mais identificar o que é genuinamente artesanal e o que é "AI slop" — o termo em inglês para o conteúdo genérico, produzido em massa por inteligência artificial, sem qualidade ou intenção por trás. Levantamentos com usuários apontaram que a maioria já evita comprar certos tipos de produto na Etsy por desconfiança.
Do lado de quem vende, a queixa é de concorrência desleal. Artesãos que fotografam, cortam tecido e embalam à mão competem por atenção com lojas que empilham centenas de anúncios gerados automaticamente, a um custo marginal próximo de zero. Não é à toa que a própria Etsy reconhece, nas novas regras, que a falta de fiscalização sobre a divulgação de IA — obrigatória desde 2024, mas raramente aplicada — alimentou o problema.
O que fica de lição
A nova política da Etsy promete ferramentas melhores de detecção e fiscalização, mas a experiência de outras plataformas sugere que o desafio não é escrever a regra, e sim cumpri-la. Afinal, de que vale proibir o robô que finge ser humano se ninguém verifica quem está, de fato, do outro lado da tela de venda?