
EUA aposentam satélites da Guerra Fria que vigiavam míssil nuclear
A Força Espacial dos EUA encerrou oficialmente o programa DSP, que por mais de 50 anos detectava lançamentos de míssil ao redor do planeta. O sucessor já opera desde 2011, e a próxima geração de satélites deve estrear em até 12 meses.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: mais de 50 anos de olhos no céu
Imagine um sistema de vigilância tão antigo que começou a operar antes da chegada do homem à Lua ter completado um ano — e que continuou de serviço até a semana passada. É essa a escala do que a Força Espacial dos EUA (US Space Force) acaba de encerrar: o Defense Support Program (DSP), programa de satélites criado para detectar lançamentos de míssil nuclear em qualquer ponto do planeta.
Segundo reportagem da Ars Technica, o primeiro satélite do DSP subiu ao espaço em novembro de 1970, lançado por um foguete Titan IIIC a partir de Cape Canaveral, na Flórida. Ao longo de mais de cinco décadas, 23 satélites da série foram colocados em órbita geoestacionária, usando sensores infravermelhos para captar o calor liberado no lançamento de foguetes e detectar possíveis ataques — função que cumpriu durante toda a Guerra Fria, de olho nos campos de míssil soviéticos, e que teve um momento decisivo em 1991, quando os satélites do DSP deram o alerta sobre os míssios Scud lançados pelo Iraque durante a Guerra do Golfo.
O que está confirmado
O fim oficial do programa foi anunciado em 1º de outubro de 2026 pelo Combat Forces Command, unidade da Space Force. O desligamento dos dois últimos satélites do DSP aconteceu em setembro, durante o exercício Apollo Maneuvers, do Comando Espacial dos EUA (US Space Command) — uma manobra orbital que encerrou a vida operacional das naves antes de movê-las para uma órbita-cemitério, mais afastada da Terra.
A vigilância contra lançamentos de míssil não ficou descoberta: desde 2011, o sucessor do DSP, batizado de Space-Based Infrared System (SBIRS, ou Sistema Infravermelho Baseado no Espaço), já está em operação. O primeiro satélite da constelação, o GEO-1, foi lançado em maio daquele ano a partir de Cape Canaveral. Hoje a rede do SBIRS soma seis satélites em órbita geoestacionária e mais quatro em órbitas elípticas de alta inclinação, sob responsabilidade da Mission Delta 4 da própria Space Force.
O que ainda é expectativa
A próxima geração do sistema de alerta de míssil, batizada de Next-Generation Overhead Persistent Infrared (Next-Gen OPIR — Infravermelho Persistente de Órbita Alta de Nova Geração), ainda não decolou. Segundo relatórios de aquisição citados pela imprensa especializada em defesa, como SpaceNews e Defense News, o primeiro dos dois satélites geoestacionários do programa está previsto para lançamento não antes de outubro de 2026 — ou seja, dentro de um horizonte de cerca de 12 meses —, após sucessivos atrasos ligados tanto à concorrência por espaço na fila de lançamentos militares quanto a investigações sobre anomalias no foguete Vulcan, da United Launch Alliance, que deve colocar a nave em órbita. O segundo satélite do programa tem lançamento estimado para setembro de 2027.
Enquanto o Next-Gen OPIR não entra em operação, é o SBIRS que continua sendo a primeira linha de detecção de lançamentos de míssil nuclear para os Estados Unidos — um papel que, até a semana passada, era dividido com os veteranos satélites do DSP.