
EUA criam consórcio pra decidir quando um carro autônomo é seguro
Não existe hoje um teste padronizado pra avaliar carros autônomos nos EUA. Consórcio criado pela NHTSA e pela SAE quer mudar isso e virar base de uma norma federal única.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O problema que ninguém tinha resolvido ainda
Pra quem anda de carro autônomo — ou cruza com um na rua — existe uma pergunta que parecia óbvia, mas segue sem resposta oficial nos Estados Unidos: como saber se aquele sistema é seguro o suficiente pra rodar sem motorista? Segundo a NHTSA, órgão regulador americano de trânsito, hoje não existe um teste padronizado pra medir o desempenho de um sistema de direção automatizada no mundo real. Cada estado, cada empresa, testa do seu jeito.
Quem paga a conta e quem fiscaliza
Pra tentar fechar essa lacuna, a NHTSA fechou parceria com a SAE Industry Technologies Consortia, entidade técnica que já define padrões pra indústria automotiva americana, e criou o consórcio ASCEND — um projeto de três anos e US$ 5 milhões pra desenvolver métricas de segurança que sirvam de base pra uma futura norma federal única. A promessa é acabar com a colcha de retalhos regulatória: hoje, cada estado americano trata carros autônomos de um jeito diferente, o mesmo tipo de assimetria que cidades brasileiras vivem quando o assunto é regulamentação de aplicativo de transporte ou monitoramento urbano.
O que muda (e o que ainda não)
O consórcio reúne governo e indústria pra desenvolver o que a NHTSA chama de "competências mensuráveis de direção" — o quanto o carro reconhece pedestre, reage a chuva forte, respeita faixa escolar. Enquanto isso não sai do papel, quem decide se um carro autônomo pode rodar continua sendo, na prática, a própria empresa que fabrica o carro, testando segundo seus próprios critérios. Empresas como a Waymo, unidade de carros autônomos do grupo dono do Google, e a Zoox, controlada pela Amazon, já operam frotas comerciais em cidades americanas sem esse padrão único — a Zoox, por exemplo, deve ampliar sua frota depois que um teto de 100 veículos expira nos EUA no fim de setembro.
Por que isso interessa pro Brasil
Cidades brasileiras ainda não têm carro autônomo circulando em escala, mas a corrida por regulamentação de mobilidade orientada a dados — semáforo inteligente, monitoramento por câmera, aplicativo de trânsito — enfrenta o mesmo dilema: quem audita o sistema antes de liberar ele pra rua? O caso americano é um parâmetro do tamanho do trabalho que falta antes de qualquer cidade poder dizer, com segurança, que fiscalizou a tecnologia — e não só confiou na palavra de quem vende.