
EUA e China aceleram corrida por satélites caçadores no espaço
Uma manobra conjunta entre EUA e Reino Unido perto de um satélite chinês reacendeu o temor de um confronto orbital. Autoridades americanas falam em conflito espacial; Pequim descreve seu satélite como pesquisa ambiental.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: dois satélites do tamanho de geladeiras manobrando a 36 mil km de altura, separados por 83 km de um terceiro objeto — e ninguém no controle sabia exatamente o que o outro faria.
Em setembro de 2025, forças espaciais dos Estados Unidos e do Reino Unido conduziram a primeira operação militar conjunta no espaço, aproximando um satélite militar americano de um britânico em órbita geoestacionária. A manobra aconteceu enquanto o satélite chinês Shiyan 12-01 passava cerca de 83 quilômetros abaixo dos dois. A operação foi confirmada publicamente pelos governos dos EUA e do Reino Unido, mas a proximidade com a espaçonave chinesa não foi divulgada oficialmente — o dado veio da empresa americana de rastreamento espacial Slingshot Aerospace, segundo apuração da agência Reuters.
O que é fato
A Força Espacial dos EUA opera a partir da Base Aérea de Peterson, no Colorado. O general Chance Saltzman afirmou que "o que os chineses estão fazendo é desenvolver rapidamente capacidades", enquanto o general Stephen Whiting declarou que é preciso "estar bem preparados para um conflito no espaço". Já a agência estatal chinesa Xinhua descreve o Shiyan 12-01 como um satélite dedicado a pesquisas do ambiente espacial — sem qualquer menção a fins militares.
Do lado privado, a SpaceX opera hoje mais de 11 mil satélites Starlink, número citado como parte do cenário de crescente ocupação orbital que preocupa planejadores militares. Empresas como a LeoLabs, especializada em rastreamento de objetos em órbita, e a L3Harris Technologies, fabricante de sistemas de defesa, também acompanham o movimento de satélites de ambos os países.
O que é hipótese ou interpretação
A leitura de que a manobra foi um "recado" a Pequim não é dado oficial, mas avaliação de especialistas. Andrew Turner, ex-oficial britânico citado pela Reuters, classificou a operação como "quase certamente um sinal estratégico para a China". Já o major-general Paul Tedman defendeu que "usar o espaço... para influenciar seu resultado é realmente importante" — uma declaração sobre estratégia, não uma confirmação de conflito iminente.
Do lado chinês, um editorial de 2022 do jornal PLA Daily, ligado ao Exército de Libertação Popular, já defendia a importância do controle do espaço, o que analistas ocidentais citam como evidência de uma doutrina em construção — não uma declaração de guerra.
Não há, até o momento, confirmação de arma antissatélite disparada ou de dano a qualquer espaçonave nos episódios recentes. O que existe, de fato, é uma escalada de manobras de proximidade e vigilância mútua em órbita.