
EUA e China cortam US$ 30 bi em tarifas e abrem diálogo sobre IA
Acordo fechado após visita de Xi Jinping a Washington reduz tarifas recíprocas em US$ 30 bilhões e cria canal permanente para discutir riscos de inteligência artificial. Trégua comercial foi prorrogada por dois meses.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Os US$ 30 bilhões que mudam o tom da disputa
Estados Unidos e China fecharam um corte recíproco de tarifas equivalente a US$ 30 bilhões em produtos, o item mais concreto de um consenso de oito pontos selado após a visita de três dias de Xi Jinping a Washington, encerrada na sexta-feira em encontro com Donald Trump. O valor é o símbolo de uma trégua que vinha sendo tratada com desconfiança dos dois lados, e agora ganha sobrevida: a moratória comercial que venceria em 10 de novembro foi prorrogada por dois meses, segundo o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent.
Quem ganha na mesa de negociação
Do lado americano, o acordo abre espaço para exportar produtos agrícolas, madeira, pescados, cosméticos e dispositivos médicos ao mercado chinês. Pequim garante condições mais favoráveis para bens de consumo como pequenos eletrodomésticos, brinquedos, itens de decoração e cadeiras automotivas infantis. Há ainda compromisso chinês de importar ao menos 10 milhões de toneladas métricas de carvão americano em 2027 e 2028. As partes também vão criar um conselho de investimento bilateral e um grupo de trabalho para barreiras agrícolas, além de manter entendimentos já obtidos em rodadas anteriores em Kuala Lumpur.
O tabuleiro da inteligência artificial
O ponto mais sensível do pacote é tecnológico. Washington e Pequim vão abrir um diálogo permanente sobre inteligência artificial, com foco em regulação, salvaguardas e avaliação de riscos de sistemas emergentes — incluindo canal de comunicação direta para evitar incidentes com tecnologias autônomas. A primeira rodada desse fórum está marcada para novembro, prazo curto que sinaliza que nenhum dos dois governos quer deixar a corrida por IA andar sem coordenação bilateral, mesmo em meio à disputa por semicondutores e infraestrutura de dados.
Um consenso maior que o comércio
O pacote de oito pontos extrapola tarifas e IA: inclui apoio mútuo às cúpulas da Apec e do G20, entendimentos sobre o programa nuclear iraniano e regras para rotas marítimas internacionais. Segundo o chanceler chinês Wang Yi, a visita de Xi "enriqueceu a relação construtiva e estável" entre os dois países — discurso que Pequim tenta emplacar após anos de retórica mais dura dos dois lados.
O que fica de fora da manchete
O corte de US$ 30 bilhões é expressivo, mas modesto perto do volume total do comércio bilateral, e a trégua tem prazo de validade: expira em janeiro de 2027. Para o mercado de tecnologia, o dado mais relevante não é o alívio tarifário em si, mas a criação de um canal formal para discutir riscos de IA — o primeiro sinal de que EUA e China aceitam conversar sobre governança de sistemas autônomos antes que um incidente force essa pauta.