tech & talk
Ciência06 de out. de 2026, 21:32

EUA e Rússia disputam corrida para levar reatores nucleares à Lua

A NASA quer um reator pronto para lançamento até dezembro de 2030, enquanto Rússia e China trabalham para ter um sistema próprio em operação até 2036. Especialistas alertam para riscos da disputa.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Imagine duas usinas nucleares do tamanho de um gerador doméstico grande, plantadas a 384 mil km da Terra, sem ninguém por perto para apertar um botão se algo der errado. É mais ou menos essa a aposta de EUA e Rússia (esta em parceria com a China) na corrida para energizar as próximas bases lunares.

O que está confirmado

A NASA trabalha com a meta de ter um reator pronto para lançamento até dezembro de 2030. O projeto, batizado Lunar Reactor 1, prevê 20 quilowatts de eletricidade e funcionamento autônomo por cinco anos, sem intervenção humana — energia suficiente para abastecer equipamentos de uma base inicial no polo sul lunar, dentro do programa Artemis.

Do outro lado, Rússia e China avançam num sistema batizado Selena, com meta de deixá-lo operacional até 2036. A proposta soviética-chinesa prevê até 10 quilowatts de eletricidade, com autonomia de uma década sem presença humana no local — reator que serviria à Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), projeto conjunto das duas potências.

Em ambos os casos, o combustível preferido é o urânio HALEU (pouco enriquecido), e a construção seria feita de forma remota, por robôs controlados da Terra.

O que é alerta, não fato

A reportagem do Olhar Digital traz a avaliação de Edwin Lyman, da Union of Concerned Scientists (organização americana que monitora riscos de energia nuclear), que vê risco na disputa: "Em uma corrida espacial, sempre haverá competição e, se você colocar a energia nuclear nessa mistura, ela pode tomar um rumo potencialmente mais perigoso". É uma preocupação levantada por um especialista — não uma previsão de acidente confirmada.

Já o lado russo projeta confiança. Mikhail Kovalchuk, do Instituto Kurchatov (principal centro de pesquisa nuclear da Rússia), afirmou que "praticamente não há concorrentes para a Rússia no campo da energia nuclear espacial" — uma declaração de posicionamento político, não um dado técnico verificável de forma independente.

O precedente citado é real: o satélite soviético Kosmos 954, de 1978, caiu com um reator nuclear a bordo e espalhou contaminação radioativa no Canadá — caso histórico usado como lembrete dos riscos de colocar material nuclear em órbita ou em corpos celestes.

Por que isso importa

Nenhum dos dois reatores existe fisicamente ainda: são metas de cronograma, não equipamentos testados. O prazo da NASA já foi descrito por técnicos do Departamento de Energia dos EUA como "agressivo, mas alcançável" — o que, na prática, significa que pode não se cumprir. A disputa é, por ora, uma corrida de anúncios e protótipos em papel, mas o resultado dela deve definir quem controla a infraestrutura energética da próxima fase de exploração lunar.

energia nuclearnasaluaexploração espacialroscosmos
Compartilhar