
EUA liberam casa pré-fabricada sem chassi: cidades correm para se adaptar
Nova lei federal nos EUA elimina a obrigatoriedade do chassi de aço nas casas manufaturadas, promessa de economia de até US$ 10 mil por unidade. Mas especialistas avisam: sem cidades ágeis na revisão de códigos, o barateamento pode não chegar ao bolso do comprador.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O fim do chassi que encarecia a casa pré-fabricada
Desde os anos 1970, toda casa manufaturada (manufactured home, versão americana da casa pré-fabricada transportável) vendida nos Estados Unidos era obrigada por lei a sentar sobre um chassi de aço permanente, como um trailer que nunca mais vai rodar. A exigência, pensada para facilitar o transporte, adicionava até US$ 10 mil ao custo de cada unidade, segundo estimativas da imprensa especializada americana. Em julho, a 21st Century ROAD to Housing Act, lei federal aprovada pelo Congresso dos EUA, removeu essa obrigação. Agora é a vez do HUD — o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano, órgão federal americano equivalente a um ministério das cidades — definir as novas normas de construção e instalação.
Quanto vai custar menos, e para quem
Foto: reprodução/housingwire.com
A pergunta que fica é: quem embolsa a economia? Arica Young, especialista do Lincoln Institute of Land Policy — instituto de pesquisa americano sobre políticas de uso da terra e habitação —, resume a incerteza: "ouvi números variando de US$ 5 mil a US$ 500" de economia por casa. Ainda não está claro se o corte de custo vai mesmo baixar o preço para quem compra, ou se vai ficar retido na margem dos fabricantes. Vale lembrar que menos de 10% das casas manufaturadas são movidas depois da instalação inicial — o que, para especialistas do setor, mostra que o chassi permanente nunca fez sentido para a maioria dos casos.
Prefeituras na linha de frente, sem prazo definido
O HUD já apresentou um plano de sete pontos, batizado de Next Generation Manufactured Housing Action Plan, mas sem data certa para as novas regras entrarem em vigor. Na prática, isso empurra a responsabilidade para os governos locais americanos: as cidades precisam rever códigos de construção, resolver acesso à rede de água e lidar com redes elétricas que não foram projetadas para esse tipo de instalação. "Você tem que estar pronto como cidade, ser ágil e entender que o processo é único", afirma Young.
A lei também impõe prazo aos estados: em até um ano após a sanção, cada estado precisa certificar que suas normas tratam as casas sem chassi da mesma forma que as tradicionais, sob pena de proibir a fabricação, instalação ou venda desse modelo em seu território. John Lindley, presidente da Michigan Manufactured Housing Association, associação do setor no estado americano de Michigan, é otimista, mas reconhece que "ainda há muitos detalhes para implementar". Falta resolver pontas soltas sobre fundações e sobre se a casa será tratada como bem móvel ou propriedade imóvel para fins de financiamento.