
EUA liberam US$ 550 milhões para trem de passageiros entre dois estados
O Departamento de Transportes americano destinou mais de meio bilhão de dólares para destravar um corredor ferroviário represado desde os anos 1980. Quanto custaria um projeto parecido no Brasil, e quem fiscalizaria essa conta?
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Enquanto no Brasil o debate sobre trens de passageiros ainda patina entre promessas e obras paradas, os Estados Unidos acabam de destravar meio bilhão de dólares para recuperar um corredor ferroviário interrompido há décadas. Vale perguntar: o que faz esse tipo de investimento sair do papel lá, e por que aqui costuma travar?
O valor e de onde ele vem
O Departamento de Transportes dos Estados Unidos (US DOT, órgão federal equivalente a um Ministério dos Transportes) obrigou formalmente US$ 550 milhões para o projeto conhecido como S-Line, que vai ligar Raleigh, na Carolina do Norte, a Richmond, na Virgínia. Esse valor faz parte de um pacote maior: a Carolina do Norte já havia recebido um aporte de cerca de US$ 1,1 bilhão aprovado ainda no governo Biden, sendo essa liberação de US$ 550 milhões a parcela mais recente. Amtrak (a operadora ferroviária nacional de passageiros dos EUA) e a Agência de Transportes da Carolina do Norte completam o financiamento com 20% adicionais em contrapartida.
O que o dinheiro vai construir
O projeto recupera cerca de 162 milhas (260 km) de uma linha que pertence à ferrovia de carga CSX, incluindo trechos de trilhos que foram arrancados entre Norlina (Carolina do Norte) e Petersburg (Virgínia) e que precisam ser reconstruídos do zero. Trechos vão operar a até 110 mph (177 km/h), com promessa de cortar até 90 minutos do tempo de viagem entre as duas cidades quando tudo estiver pronto. Segundo o órgão de transportes da Carolina do Norte, o objetivo direto é aliviar o congestionamento nos corredores de carga já existentes e permitir que os dois estados programem trens de passageiros mais frequentes.
Quem fiscaliza, e o que isso diz para o Brasil
As obras começaram em 2024 em Raleigh e, segundo apuração cruzada, a liberação dos US$ 550 milhões em 2026 foi anunciada publicamente pelo governador da Carolina do Norte junto à Administração Federal de Ferrovias — ou seja, há um rito de anúncio público e vinculação formal do recurso, não apenas uma promessa política solta.
Fica a pergunta de sempre: quanto custaria recuperar ou reativar trechos ferroviários abandonados no Brasil, e qual órgão aqui assumiria publicamente essa obrigação de valores, prazos e contrapartidas, como fez o US DOT? Sem fontes brasileiras equivalentes, essa comparação direta ainda fica em aberto — mas o modelo de transparência no anúncio é um parâmetro que vale cobrar.