
EUA vão divulgar quantas vezes juízes autorizam spyware em escutas
A partir do relatório de 2028, publicado em 2029, o Poder Judiciário dos EUA passará a informar quantas escutas telefônicas foram feitas com ferramentas de hacking e spyware. Hoje esse número é secreto.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
O Escritório Administrativo dos Tribunais dos Estados Unidos (Administrative Office of the U.S. Courts), órgão que coordena a administração do Judiciário federal, confirmou à TechCrunch que vai começar a informar publicamente quantas vezes juízes autorizaram o uso de spyware e ferramentas de hacking para realizar escutas telefônicas.
A mudança vai criar uma nova categoria, chamada internamente de "spyware/hacking" — também conhecida entre investigadores como NIT (network investigative techniques) —, dentro do Wiretap Report, relatório anual que a Justiça americana publica há quase duas décadas sobre pedidos de interceptação de comunicações. O rastreamento da nova categoria começa no relatório referente a 2028, que só deve ser divulgado em 2029.
Segundo a TechCrunch, o FBI usa discretamente ferramentas de hacking e spyware para grampos desde pelo menos 1998, mas nunca houve um número público consolidado sobre a frequência desse uso. A mudança foi anunciada pelo próprio órgão ao senador democrata Ron Wyden, que cobra mais transparência sobre vigilância governamental desde 2017 e defende no Congresso o Government Surveillance Transparency Act.
Quem é afetado
A nova divulgação cobre apenas casos em que investigadores interceptam comunicações em tempo real — como ligações, SMS ou mensagens em apps como Signal e WhatsApp — por meio de ferramentas de invasão. Não entram nessa contagem acessos remotos usados para copiar fotos, documentos ou dados de localização já armazenados em um dispositivo, o que mantém uma parte relevante da vigilância digital fora do novo relatório.
Em nota à TechCrunch, o próprio Escritório Administrativo explicou que o Wiretap Report é montado a partir de formulários enviados por tribunais de todo o país ao longo do ano, e que esses formulários e procedimentos internos precisam ser atualizados antes que a nova categoria possa aparecer no relatório oficial — daí o prazo até 2029.
Eva Galperin, da Electronic Frontier Foundation, avaliou que a mudança é um avanço porque, até agora, só era possível "chutar" o tamanho do problema. Wyden reforçou que "o povo americano permanece amplamente no escuro sobre as diferentes formas como o governo os vigia".
O que fazer agora
- Não há ação prática imediata para o público em geral: a mudança é institucional e os primeiros números só sairão em 2029.
- Quem acompanha casos criminais ou atua na área jurídica pode monitorar os Wiretap Reports anuais, hoje já publicados no site do uscourts.gov, para entender o histórico de escutas antes da nova categoria entrar em vigor.
- Jornalistas, pesquisadores e organizações de direitos digitais devem ficar atentos à publicação dos formulários atualizados, que vão definir exatamente o que conta como "spyware/hacking" no relatório.
- Vale lembrar que o novo dado não cobrirá extração remota de arquivos e localização — quem quiser entender essa fatia da vigilância ainda dependerá de pedidos de transparência ou reportagens investigativas.