
Foguetes reutilizáveis não compensam para Agência Espacial Européia
Especialistas em política espacial apontam um dilema: sem uma Starlink própria para gerar demanda, investir pesado em reutilização pode não fechar as contas para a Europa. A ESA já reconheceu que rejeitou o caminho por decisão consciente.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
A ESA (Agência Epacial Europeia) está diante de uma situação curiosa em muitos mercados: um caso onde um produto reutilizável simplesmente vale mais que um produto descartavável. No caso dos foguetes, a situação está assim: um Falcon 9 pousa de volta na Terra dezenas de vezes por ano — a Europa, somando todos os seus foguetes, mal chega a uma dezena de lançamentos no mesmo período. É essa desproporção que está no centro de um debate que especialistas em política espacial vêm descrevendo como a Europa "entre a cruz e a espada": construir foguetes reutilizáveis custa caro, mas não construí-los pode custar a soberania espacial do continente.
O problema é econômico, não técnico
A reutilização de foguetes só compensa financeiramente quando há volume suficiente de lançamentos para diluir o investimento em recuperação, manutenção e nova fabricação de estruturas. A própria ESA já admitiu isso publicamente: a decisão de projetar o Ariane 6 como um foguete descartável foi tomada "exatamente por causa desse argumento", já que as necessidades institucionais europeias somam cerca de 11 lançamentos anuais entre Vega-C e Ariane 6 — volume baixo demais para justificar o investimento.

Foto: reprodução/europeanspaceflight.com
Martin Sion, CEO da ArianeGroup, resumiu o raciocínio da época: quando o programa Ariane 6 começou, um foguete reutilizável simplesmente "não era economicamente interessante". O ex-ministro da Economia da França, Bruno Le Maire, reconheceu depois que a decisão foi um erro estratégico: "havia uma bifurcação no caminho, e não escolhemos o caminho certo" — a escolha por manter o foguete descartável foi tomada pouco antes de a SpaceX realizar seu primeiro pouso vertical bem-sucedido do Falcon 9, em 2015.
O truque da SpaceX: criar a própria demanda
O cerne do dilema é que a economia da reutilização da SpaceX não se sustenta sozinha — ela depende da Starlink, a megaconstelação de satélites que a própria empresa criou para gerar demanda constante e interna de lançamentos em órbita baixa. Sem esse mercado cativo, mesmo o Falcon 9 reutilizável mal cobriria os custos. A Europa não tem equivalente: não há uma constelação comercial europeia de peso que justifique um ritmo alto de lançamentos, e sem esse ritmo, não há como amortizar o investimento em reutilização.
O que a Europa está tentando fazer
A Agência Espacial Europeia (ESA) já avalia dobrar a cadência do Ariane 6, hoje na casa de 6 a 8 lançamentos previstos para 2026, com meta de chegar a 10 por ano em 2027 — e o diretor-geral Josef Aschbacher afirmou que a agência estuda cenários de 12, 15 ou até 20 voos anuais para tentar viabilizar economicamente futuras versões reutilizáveis.
Enquanto isso, a ESA selecionou cinco finalistas no chamado European Launcher Challenge — Isar Aerospace, Rocket Factory Augsburg, PLD Space, MaiaSpace e Orbex — com até 169 milhões de euros por empresa e um total de 900 milhões de euros no programa, atuando como "cliente-âncora" para dar previsibilidade a investidores privados. Até agora, apenas a MaiaSpace (foguete Maia) e a PLD Space (Miura 5) planejam versões parcialmente reutilizáveis já em suas primeiras gerações.
A ArianeGroup também estuda substituir os propulsores sólidos descartáveis do Ariane 6 por versões líquidas reutilizáveis baseadas no design da Maia — mas o estágio central, o estágio superior e a coifa do foguete continuariam de uso único, o que limita o ganho de economia da mudança.
O que ainda é hipótese
Não há, até o momento, um cronograma oficial confirmado de quando (ou se) a Europa terá um foguete totalmente reutilizável operacional. As decisões sobre cadência de lançamento, financiamento adicional e escolha de qual dos cinco projetos avançará dependem de aprovações políticas dos Estados-membros da ESA ainda em curso.