
NASA recua, e sonda europeia vai sozinha para Vênus
A ESA decidiu avançar com a missão EnVision a Vênus mesmo sem confirmação da NASA sobre a entrega do radar VenSAR, prometido em acordo de 2024 e ameaçado por cortes no orçamento científico americano.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Vênus fica permanentemente encoberto por uma camada de nuvens de ácido sulfúrico tão espessa que nenhuma câmera óptica consegue enxergar sua superfície — é como tentar fotografar o chão de uma cidade coberta por uma tempestade eterna. Por isso, a espaçonave EnVision, projeto da Agência Espacial Europeia (ESA) para explorar o planeta, depende de radar para mapear o relevo venusiano. E é justamente esse instrumento que agora está em risco.
O que está confirmado
Em um memorando de entendimento firmado em 2024, a NASA (agência espacial dos Estados Unidos) havia se comprometido a fornecer à EnVision um radar de abertura sintética batizado de VenSAR, além de suporte de comunicação pela Deep Space Network, rede de antenas da própria NASA usada para rastrear sondas no espaço profundo. Em contrapartida, a ESA ficaria responsável pela construção da espaçonave, pelos demais instrumentos científicos e pelo lançamento, a bordo do foguete europeu Ariane 6.
Segundo apurou a Ars Technica, esse acordo foi colocado em xeque depois que a proposta de orçamento do governo dos Estados Unidos para a área científica da NASA incluiu cortes que atingiram o desenvolvimento do VenSAR. Embora o Congresso americano tenha posteriormente proposto restaurar parte da verba de ciência da NASA, a incerteza se arrastou o suficiente para que a ESA concluísse que a agência americana dificilmente cumpriria o compromisso dentro do prazo necessário. Com isso, a ESA decidiu seguir com o desenvolvimento da missão por conta própria, já buscando alternativas europeias para substituir o radar americano.
O que ainda é incerto
Não está definido publicamente qual fornecedor ou consórcio europeu assumirá a construção de um radar substituto, nem se a nova solução conseguirá entregar a mesma resolução prometida originalmente pelo VenSAR — a proposta inicial previa mapeamento da superfície com resolução de até 10 metros, cerca de dez vezes mais detalhada que a de missões anteriores a Vênus. Também segue incerto se atrasos na definição do novo instrumento vão empurrar a janela de lançamento da EnVision, hoje associada ao fim desta década, ou se a NASA ainda poderá entrar de alguma forma no projeto caso o financiamento americano se normalize.