
Exército dos EUA aposta US$ 11 milhões em rival do GPS, a Tern
A startup de Austin fechou contrato de US$ 11,26 milhões com o Exército americano para levar sua navegação sem satélite a veículos militares. O acordo surfa a escalada de bloqueios de GPS no Oriente Médio e no front Rússia-Ucrânia.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 11,26 milhões é o número que trava a conta
Esse é o valor do contrato que o Exército dos Estados Unidos fechou com a Tern, startup de Austin, no Texas, que desenvolve uma alternativa de navegação sem depender de satélites GPS. O dinheiro vai bancar a implantação da tecnologia, apelidada pela própria empresa de "Google Maps para o campo de batalha", em veículos militares.
O que a Tern vende
Foto: reprodução/prnewswire.com
A Tern é uma startup de navegação que promete manter veículos localizados mesmo quando o sinal de GPS cai ou é deliberadamente bloqueado. O sistema combina dados de mapas já existentes com sensores de movimento do próprio veículo — um dispositivo plugado na placa de diagnóstico, conectado a um tablet, segundo o CEO e cofundador Shaun Moore. A tecnologia, batizada de IDPS (independently derived positioning system), processa os dados localmente (edge computing) e converte leituras em coordenadas de latitude e longitude por métodos proprietários, sem depender de constelação de satélites. Em teste de 1.300 milhas entre Austin e Laguna Beach, a empresa afirma ter mantido posicionamento consistente enquanto o GPS falhou dezenas de vezes ao longo do trajeto — funcionando também off-road, em túneis e no deserto.
O outro cofundador, Brett Harrison, é veterano de operações especiais no Afeganistão, experiência que a empresa credita como origem do produto.
Por que o timing importa
O contrato chega num momento em que interferências e bloqueios de GPS (jamming e spoofing) se multiplicam no Oriente Médio e no espaço aéreo entre Rússia e Ucrânia. Isso empurrou tanto o Congresso quanto a Casa Branca a pressionar por tecnologias de navegação mais resilientes — e abriu porta orçamentária para fornecedores alternativos como a Tern, cujo sistema fechado é descrito como mais difícil de ser interrompido por adversários do que o GPS tradicional.
Quem ganha com isso
Antes do contrato militar, a Tern já vinha de uma trajetória de captação relativamente modesta para o setor de defesa: começou com uma rodada seed de US$ 4,4 milhões, puxada pela gestora de Austin Scout Ventures, com Shadow Capital, Bravo Victor VC e Veteran Fund, e depois fechou uma extensão de seed de US$ 7,5 milhões em outubro de 2025, com Scout VC, o endowment da Vanderbilt e Shadow Capital, entre outros. Um contrato de US$ 11 milhões com o Exército não só supera o total captado em capital de risco até aqui, como funciona como validação técnica de peso — o tipo de referência que abre porta para outros contratos de defesa e para clientes comerciais que dependem de navegação em áreas sem cobertura satelital confiável.
Quem sai perdendo, ao menos no curto prazo, é o modelo de dependência total do GPS tradicional em operações militares — cada vez mais visto em Washington como vulnerabilidade estratégica a ser corrigida por fornecedores menores e mais ágeis do que os grandes contratados de defesa.