
Falar mais de um idioma pode deixar o cérebro anos mais jovem, dizem estudos
Duas pesquisas recentes associam o multilinguismo a um envelhecimento cerebral mais lento e a menor risco de declínio biológico acelerado. Os autores destacam que a relação é uma correlação robusta, não uma prova definitiva de causa e efeito.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Um cérebro até 13 anos mais jovem
Pessoas que falam quatro idiomas podem ter um cérebro que aparenta ser cerca de 13 anos mais jovem do que o de quem fala só um. É o achado central de um estudo apresentado no fórum 2026 da Federation of European Neuroscience Societies (FENS), organização que reúne pesquisadores de neurociência de toda a Europa. Segundo a pesquisa, liderada por Lucia Amoruso, do Basque Center on Cognition, Brain and Language, centro de pesquisa espanhol dedicado a linguagem e cognição, quem fala dois idiomas teve cérebros cerca de 6 anos mais jovens que monolíngues; falantes de três idiomas, cerca de 7 anos; e de quatro, os tais 13 anos.
O que foi medido, de fato
Os cientistas construíram um "relógio de envelhecimento cerebral" a partir de dados de magnetoencefalografia — técnica que capta os campos magnéticos gerados pela atividade dos neurônios — combinados com inteligência artificial, usando 728 pessoas para calibrar o modelo e depois aplicando-o a outro grupo de 144. É esse relógio que aponta a diferença entre a idade cerebral estimada e a idade cronológica real dos participantes.
Os pesquisadores controlaram idade, sexo e escolaridade, mas fizeram questão de avisar: não é possível descartar a influência de outros fatores, como estilo de vida e engajamento social, que também podem explicar parte do efeito observado.
Um segundo estudo, maior, aponta na mesma direção
O achado se soma a outro trabalho, publicado em novembro de 2025 na revista Nature Aging e liderado pelo neurocientista Agustin Ibañez, que analisou dados de 86.149 pessoas entre 51 e 90 anos em 27 países europeus. Nesse estudo, monolíngues tiveram cerca do dobro de chance de apresentar envelhecimento biológico acelerado em comparação com quem fala mais de um idioma. O efeito também pareceu ser cumulativo: quanto mais idiomas, maior a proteção observada.
O que é confirmado e o que ainda é hipótese
Os dois estudos são observacionais: mostram uma associação estatística entre multilinguismo e marcadores de envelhecimento mais lento, mas não provam que aprender idiomas causa esse efeito. É plausível que pessoas com maior reserva cognitiva ou vida social mais ativa tenham, ao mesmo tempo, mais chances de aprender línguas e de envelhecer melhor — sem que uma coisa cause diretamente a outra.
A hipótese mais aceita é a de que alternar entre idiomas exige controle cognitivo e atenção constantes, o que ajudaria a fortalecer a chamada reserva cognitiva do cérebro. Mas essa explicação de mecanismo ainda não foi comprovada por ensaios controlados — o que existe, por ora, é correlação, ainda que consistente entre estudos com metodologias diferentes.