
Family offices trocam fundos de VC por apostas diretas em IA
Levantamento do UBS com 307 family offices mostra que ativos alternativos já somam 42% dos portfólios, com investidores buscando cheques de até US$ 100 milhões em nomes como a Anthropic. A pressa por retorno rápido está mudando o jogo do venture capital.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
42% do portfólio já é aposta alternativa
O número que resume a corrida: segundo o UBS Global Family Office Report 2026, pesquisa da divisão de gestão de patrimônio do banco suíço UBS com 307 family offices de patrimônio líquido médio de US$ 2,7 bilhões, os investimentos alternativos — private equity, venture capital e crédito privado — já respondem por 42% do portfólio médio dessas estruturas que administram fortunas familiares. E a fatia que mais cresce dentro desse bolo é a de apostas diretas em inteligência artificial.
O patrimônio total sob gestão de family offices no mundo somava US$ 5,5 trilhões em 2024, segundo dado citado pela consultoria Deloitte, com projeção de chegar a US$ 9,5 trilhões até 2030. É esse capital que está migrando de fundos tradicionais de venture capital para negociações diretas com startups de IA.
Quem ganha: velocidade acima de tudo
Djoann Fal, assessor de investimentos da gestora Atlas Capital, em São Francisco, resume a lógica que domina esse fluxo de dinheiro: se uma família tem a chance de multiplicar por três o capital em três anos numa aposta, e outra opção promete o mesmo múltiplo em três meses, a escolha recai sobre o negócio de IA mais rápido. Fal afirma estar recebendo demanda de investidores dispostos a colocar entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões em ações da Anthropic, startup de inteligência artificial rival da OpenAI, via mercado secundário — compra de participações já existentes, sem passar por um fundo gestor.
Esse movimento não é exatamente novo: os negócios diretos, que representavam 9% do portfólio médio das family offices em 2019, saltaram para 13% em 2021, ano em que o mercado global de private equity e venture capital registrou 17.460 transações, somando cerca de US$ 1,05 trilhão, segundo o PwC Global Family Office Deals Study. Depois veio a ressaca: a atividade de negócios diretos e fusões e aquisições caiu 53% nos 18 meses até o fim de 2023.
Quem perde: os gestores de fundos tradicionais
Um relatório da J.P. Morgan Private Bank, divulgado em fevereiro, mostra que 65% das family offices pretendem priorizar investimentos em IA — e boa parte disso passa ao largo dos fundos de venture capital clássicos. Angelina Hu, responsável por relações com investidores na gestora Bridge Funding Global, diz que o mercado secundário permite ganhar exposição a nomes como Anthropic e OpenAI sem precisar diversificar em 20 ou 30 empresas dentro de um fundo.
Maximilian Kunkel, diretor de investimentos do UBS Global Wealth Management, e Bruce K. Lee, fundador da gestora Keebeck Wealth Management, reconhecem o outro lado da moeda: a concentração em poucas apostas de IA infla valuations e amplia o risco sistêmico. A pergunta que fica é se essa migração de capital familiar para apostas diretas em IA é uma mudança estrutural do mercado — ou apenas mais um ciclo de euforia repetindo o padrão de 2021.