
FEMA libera US$ 1,3 bi para recuperação de desastres; quem fiscaliza o uso?
A agência federal de emergências dos EUA anunciou US$ 400 milhões em novas concessões contra enchentes, somando-se a quase US$ 900 milhões já distribuídos a estados e municípios em 2026. O dinheiro é generoso, mas a execução fica nas mãos dos governos locais.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Se você mora em área sujeita a enchentes nos Estados Unidos, a notícia desta semana pode significar uma obra de drenagem na sua rua — ou pode significar mais um pote de dinheiro federal que demora anos para virar concreto. A FEMA (Federal Emergency Management Agency, a agência federal americana responsável pela resposta a desastres e repasse de verbas de recuperação) anunciou em outubro um pacote de US$ 1,3 bilhão para recuperação e prevenção de desastres, com destaque para US$ 400 milhões destinados a reduzir risco de enchentes.
Para onde vai o dinheiro
Dos US$ 400 milhões, US$ 260 milhões são reservados a projetos localizados de redução de risco de enchente — pense em obras de drenagem, diques e sistemas de contenção em bairros específicos — e US$ 120 milhões vão para projetos individuais, como elevar ou reforçar construções isoladas. O recurso sai do National Flood Insurance Fund e da Infrastructure Investment and Jobs Act, a lei de infraestrutura aprovada ainda no governo Biden. O prazo para municípios e estados se candidatarem é 26 de fevereiro de 2027.
Esse montante vem além dos quase US$ 900 milhões que a FEMA já havia distribuído neste ano em concessões de recuperação e mitigação a cerca de 620 projetos em estados como Iowa, Nova York, Pensilvânia e no Distrito de Columbia — incluindo US$ 90 milhões para 75 projetos de mitigação de perigos e US$ 8,2 milhões aprovados em setembro para financiamento pós-desastre.
Quem decide como gastar
Aqui está o ponto que interessa a qualquer cidadão que paga imposto: a FEMA é quem assina o cheque, mas é o governo local — prefeitura, secretaria estadual de obras, conselho municipal — que escolhe o projeto, contrata a empreiteira e presta contas (ou não) do resultado. Isso significa que a eficiência da verba varia enormemente de cidade para cidade, e o cidadão de cada município precisa acompanhar as licitações locais para saber se a prevenção prometida realmente saiu do papel.
Vale lembrar que o programa guarda-chuva de mitigação de riscos, o BRIC, foi encerrado pelo governo Trump em abril de 2025 e só voltou a funcionar em março de 2026 depois de decisão judicial — com US$ 1 bilhão reativado em maio e outros US$ 2,2 bilhões em subpedidos ainda pendentes de análise. Ou seja, a verba existe, mas tramita em ritmo de burocracia federal, enquanto a próxima enchente não espera carimbo de ninguém.
A FEMA classifica as enchentes como "a calamidade natural mais comum e cara do país" — e, considerando que cada atraso na liberação de verba é tempo que comunidades vulneráveis passam sem proteção, a pergunta que fica é: quanto desse US$ 1,3 bilhão vai efetivamente virar obra antes da próxima temporada de chuvas?