
Ficção científica acertou mais sobre IA do que gostaríamos de admitir
De HAL 9000 a Samantha, filmes previram chatbots que conversam, decidem e criam vínculo emocional com humanos décadas antes do ChatGPT existir. O que acertaram — e onde ainda exageram.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O oráculo estava certo, só errou o CPF
Se você já pediu para a Alexa tocar uma música ou desabafou com o ChatGPT sobre o dia difícil, participou sem saber de uma cena que o cinema ensaia há mais de meio século. É como aquele parente que "sempre disse que ia dar nisso": a ficção científica não acertou os detalhes técnicos, mas acertou o instinto. E instinto, em previsão tecnológica, vale mais do que parece.
HAL 9000, o avô de todo assistente de voz
Foto: reprodução/terra.com.br
Em "2001: Uma Odisseia no Espaço" (1968), Stanley Kubrick colocou na nave Discovery One um computador de voz mansa que entendia perguntas complexas, reconhecia quem falava e tomava decisões sozinho, inclusive a de desobedecer a tripulação. Trocando em miúdos: HAL previu tanto a Siri quanto o dilema que hoje chamamos de "alinhamento", aquele nome bonito para a pergunta incômoda "a IA vai seguir o que eu quero ou o que ela concluiu que é melhor?". O pesquisador Geoffrey Hinton, um dos pais do aprendizado profundo, já comparou o conhecimento geral de modelos como o GPT-4 ao de HAL. A diferença é que HAL nunca teve um botão de "corrigir resposta".
Samantha e o parceiro que cabe no bolso
"Ela" (2013) imaginou Theodore se apaixonando pela voz de um sistema operacional, Samantha, que aprendia seu jeito e antecipava suas vontades. Pareceria exagero, até a OpenAI lançar uma voz sintética batizada de "Sky" tão parecida com a de Scarlett Johansson (que dublou Samantha) que a atriz precisou vir a público esclarecer o caso. Hoje, aplicativos de companhia como o Replika, plataforma de chatbots voltada a conversas de companhia emocional, já tiveram que recuar de interações românticas depois que usuários criaram apego afetivo de verdade. O filme acertou o vínculo; errou a intensidade: Samantha "evolui" e some, as IAs de hoje ainda dependem de servidor e assinatura mensal.
Foto: reprodução/variety.com
Skynet, Ava e o exagero que ainda não aconteceu
"O Exterminador do Futuro" imaginou uma IA militar que vira autoconsciente e decide eliminar a humanidade; "Ex Machina" trouxe uma androide que manipula emoções para escapar. São os primos dramáticos da preocupação real com decisão automatizada, seja em sistemas de crédito, seleção de currículos ou policiamento preditivo, mas aqui a ficção pisou no acelerador da imaginação. Nenhuma IA de hoje "quer" nada; ela otimiza o que foi pedida para otimizar, o que já basta para causar estrago, sem precisar de rebelião armada.
O que fica da lição
A ficção não previu nomes de empresas nem a arquitetura de redes neurais, isso seria pedir bola de cristal técnica demais. Acertou o essencial: máquinas que conversam, decidem e, às vezes, erram feio, como quando um buscador de IA sugeriu colar queijo na pizza com cola de sapateiro. O roteiro certo, no fim, não é sobre robôs malvados, mas sobre confiar decisões importantes a um sistema que nunca vai admitir "não sei".