
Fila de 7 anos pela rede elétrica empurra data centers a motores de jato
Com turbinas novas escassas e conexão à rede elétrica levando até sete anos, empresas de IA como a xAI já recorrem a motores de avião reaproveitados para ligar seus data centers — uma solução mais rápida, porém mais suja e menos eficiente.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Sete anos é o número que trava a corrida da IA
Sete anos: esse é hoje o tempo médio para conectar à rede elétrica de Northern Virginia, nos Estados Unidos, um bloco de 100 megawatts — potência que um data center de IA de porte médio consome sem dificuldade. Diante de um prazo incompatível com o ritmo de investimento bilionário em infraestrutura de inteligência artificial, empresas do setor encontraram um atalho pouco ortodoxo: motores de jato aposentados, convertidos em turbinas geradoras de energia, que entram em operação em cerca de 24 meses.
Quem já aderiu à solução
A xAI, empresa de IA de Elon Musk, instalou oito unidades convertidas a partir de motores GE CF6-80C2 — os mesmos usados em aeronaves Boeing 747 — em Southaven, no Mississippi, para alimentar o data center Colossus 2, em Memphis. Juntas, as oito turbinas geram até 495 megawatts, o equivalente a uma usina convencional de porte médio; a empresa já prepara uma planta permanente a gás de 1,2 gigawatt, com 41 turbinas. A conversão é feita pela ProEnergy, fornecedora americana especializada em reaproveitar núcleos de motores aeronáuticos para geração de energia. A OpenAI também recorreu a turbinas a gás em seu primeiro site do projeto Stargate, em Abilene, no Texas. Já a Crusoe Energy, empresa de infraestrutura de computação para IA, encomendou 13 unidades convertidas à ProEnergy em abril — depois de abandonar um acordo de US$ 1,25 bilhão com a fabricante de aviões supersônicos Boom Supersonic.
Quem ganha e quem perde
Quem ganha, no curto prazo, são as próprias empresas de IA: elas furam a fila da rede elétrica e mantêm o cronograma de expansão de data centers, hoje o maior gargalo de capacidade do setor — a Microsoft, por exemplo, chegou a recuar de um projeto no Reino Unido ao saber que a espera por energia se estenderia até o início ou meados da década de 2030. A ProEnergy também ganha, ao encontrar um mercado inesperado para motores que seriam descartados. Quem perde são as comunidades vizinhas às instalações: os motores convertidos operam com eficiência menor e emitem mais poluentes que turbinas feitas sob medida, exigindo mais unidades para gerar a mesma potência. Em Memphis, entidades como a NAACP e o Southern Environmental Law Center já contestam na Justiça as licenças ambientais concedidas às turbinas da xAI, citando emissão de formaldeído e material particulado.
O múltiplo que não aparece no balanço
O cálculo é simples: cada ano de atraso na energização custa caro em competitividade na corrida por IA, e por ora é mais barato pagar o preço ambiental e reputacional de usar motores de avião do que esperar a fila da rede elétrica andar.