
Filme sobre a Odisseia feito 100% por IA chega com 2h15 e crítica arrasadora
"Odysseus: The Fall", do estúdio Fountain 0, foi lançado na esteira da versão de Christopher Nolan sobre a mesma história e virou alvo de críticas por imagens inconsistentes e roteiro raso.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Duas Odisseias, duas ligas completamente diferentes
Imagina dois cozinheiros preparando a mesma receita de família: um usa ingrediente fresco, tempo e mão na massa; o outro joga tudo num liquidificador industrial e espera o melhor. Foi mais ou menos essa a comparação inevitável entre "Odysseus: The Fall" e o aguardado épico de Christopher Nolan sobre a Odisseia de Homero — ambos disputando a atenção do público praticamente na mesma janela de lançamento.
"Odysseus: The Fall" é o segundo longa-metragem inteiramente gerado por inteligência artificial do estúdio Fountain 0, dirigido por Ash Koosha (cineasta iraniano radicado no Reino Unido, conhecido por explorar arte digital e IA generativa). Com cerca de 2h15 de duração, cada imagem do filme — dos personagens às paisagens do Mediterrâneo — foi criada por modelos de IA, num processo que, segundo a produção, levou poucos meses de trabalho e custou uma fração do orçamento de uma produção hollywoodiana tradicional.
O veredito não foi gentil
A crítica especializada do site americano The Verge, assim como outros veículos internacionais, não poupou adjetivos duros. O consenso é que o filme impressiona nos primeiros minutos pela qualidade visual — mas a ilusão desmorona rápido. Personagens mudam de aparência de uma cena para outra (o próprio Odisseu não é visualmente consistente ao longo da trama), movimentos de corrida parecem desengonçados e interações físicas entre personagens saem quebradas, como bonecos de pano tentando se abraçar.
Mais do que falhas técnicas pontuais, a crítica aponta um problema de fundo: o filme parece uma colagem do que a IA "entende" que é épico grego, sem uma voz autoral por trás — um mosaico de referências de outros filmes, sem o toque humano que costuma dar alma a uma adaptação.
Vale ou não vale o hype da IA no cinema
Aqui é onde cabe o contraponto: por mais que o resultado tenha decepcionado, o próprio experimento é significativo. Produzir um longa-metragem inteiro, sozinho ou em equipe pequena, por uma fração do custo de uma produção de estúdio é algo impensável há poucos anos — e aponta para um caminho de democratização que preocupa tanto quanto anima a indústria do audiovisual.
Por ora, a régua de qualidade segue distante. Enquanto Nolan aposta em elenco, figurino histórico e efeitos práticos para reconstruir a saga de Ulisses, "Odysseus: The Fall" serve como lembrete de que gerar imagens bonitas é uma coisa; contar uma história coerente, de ponta a ponta, ainda é um desafio que a IA não resolveu.