
Fim do segundo bissexto: mundo vota para abolir ajuste que incomoda a internet
O BIPM decidiu eliminar o leap second a partir de maio de 2027 para evitar o risco de um 'mini Y2K' causado por um ajuste negativo inédito no relógio mundial.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: o mundo inteiro está prestes a parar de ganhar um segundo extra de vez em quando
É a decisão confirmada em 15 de outubro de 2026, durante a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM), realizada em Versalhes, na França. Os delegados votaram para abolir o "segundo bissexto" (leap second), o ajuste ad hoc usado desde a década de 1970 para manter o tempo oficial do mundo, o UTC (Tempo Universal Coordenado), sincronizado com a rotação real da Terra.
A decisão foi tomada pelo Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), organização internacional sediada na França responsável por definir os padrões oficiais de medição usados no mundo, incluindo a fonte do UTC. A mudança passa a valer em 20 de maio de 2027, data simbolicamente escolhida por coincidir com o Dia Mundial da Metrologia.
Por que abolir agora: o risco do segundo negativo
O que é fato: desde meados da década de 2010, a rotação da Terra vem acelerando, ao contrário do padrão histórico de desaceleração. Isso criou uma situação inédita — a possível necessidade de subtrair um segundo do relógio mundial, em vez de adicionar, como sempre foi feito até agora. Cientistas calculam que esse "leap second negativo" poderia ser necessário já em 2029.
Engenheiros alertam que um ajuste negativo representaria um risco sério para sistemas digitais — comparável, segundo a reportagem do The Verge, a um "evento mini Y2K", em referência ao bug do ano 2000, por enviar simultaneamente relógios de servidores, sistemas financeiros de alta frequência e outras infraestruturas um segundo para trás no tempo. Os leap seconds tradicionais já causavam problemas porque são anunciados com apenas seis meses de antecedência, dificultando ajustes em sistemas computacionais.
O que vem a seguir: a "hora bissexta"
No lugar do segundo bissexto, o novo sistema vai permitir que o UTC se desvie do tempo astronômico (UT1) em até uma hora completa antes de qualquer correção — o que os especialistas chamam de "leap hour" (hora bissexta). Segundo as projeções citadas pelos cientistas, essa correção de uma hora inteira não deve ser necessária por mais de mil anos, o que praticamente resolve o problema para gerações futuras.
Noël Dimarcq, presidente do Comitê Consultivo para Tempo e Frequência do BIPM, resumiu o momento: "Após 30 anos de debates, estamos prontos." Já Nick Stamatakos, chefe do Departamento de Orientação Terrestre do Observatório Naval dos Estados Unidos, afirmou que evitar os leap seconds negativos foi "um grande impulsionador" para a decisão de ampliar a margem de tolerância entre UTC e UT1.