
Financeira apoiada pela China financiou compra de chips restritos da Nvidia
Semi-Tech Leasing destinou R$ 8,6 bilhões a infraestrutura de IA e ajudou a Glory View Technology a captar R$ 2,4 bilhões para servidores com Blackwell B300.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
Mais de 11 bilhões de yuans — cerca de R$ 8,6 bilhões — foi o valor que a Semi-Tech Leasing Group, financeira chinesa originalmente criada com apoio do fundo nacional de semicondutores da China e hoje controlada por entidades governamentais de Shenzhen e Pequim, destinou a infraestrutura de computação para IA desde meados de 2025. Parte desse dinheiro ajudou a Glory View Technology, operadora de data centers ligada ao esquema, a captar mais de 3 bilhões de yuans (R$ 2,4 bilhões) e comprar 32 servidores da fabricante taiwanesa Asus equipados com chips Blackwell B300 da Nvidia — processadores sujeitos a restrição de exportação dos Estados Unidos para a China.
Como a operação veio à tona
A Bloomberg identificou o esquema analisando registros regulatórios chineses submetidos ao Banco do Povo da China. Depois que a reportagem começou a circular, a Semi-Tech Leasing reenviou versões alteradas dos mesmos registros às centrais de crédito do país, removendo descrição de hardware, nome de fornecedor e modelo dos servidores — mais um indício de que a operação não era pra ser vista.
Quem ganha e quem perde
Quem ganha, no curto prazo, é a cadeia de infraestrutura de IA chinesa, que segue tendo acesso a chip de ponta mesmo sob embargo — e a própria Nvidia, que fatura a venda independente da rota que o produto percorre depois. Quem perde é o desenho da política de exportação dos EUA, que mostra ter brecha suficiente para financiamento estatal disfarçado de operação de leasing comercial atravessar o controle.
O contexto que falta
Nem a Semi-Tech Leasing nem a Glory View Technology comentaram publicamente o caso até a publicação desta matéria, e não há indicação de que os EUA vão abrir processo específico contra as duas empresas — o que deixa em aberto se o episódio vira precedente de fiscalização mais dura ou só mais um dado na pilha de furos já conhecidos do embargo.